sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eficiência e sutileza fazem de Histórias Cruzadas um bom "feel good movie"

Em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, nós somos apresentados a uma história num interessante período e local: o sul dos Estados Unidos da América (mais especificamente o estado do Mississippi) na década de 1960. Sabe-se que essa foi a época em que Martin Luther King travava batalhas pela igualdade dos negros na sociedade, ao mesmo tempo em que o preconceito no sul dos EUA era ainda mais espinhoso – sabe-se que tal região do país é conhecida por seu histórico de intolerância diante de grupos minoritários. É esse o quadro encontrado pela jornalista recém-formada Skeeter (interpretada por Emma Stone) ao retornar para a cidadezinha de Jackson.

Se o período é borbulhante em termos de acontecimentos históricos, Histórias Cruzadas decide abordar apenas a faceta doméstica e feminina do relacionamento da sociedade com as pessoas “de cor”, como são chamadas algumas vezes no decorrer do filme. Empregadas negras que trabalham muito e ganham pouco educando (e se afeiçoando aos) filhos de seus patrões brancos, estão presas à corrente do preconceito: suas mães trabalhavam como empregadas para brancos, e por falta de oportunidades, suas filhas farão o mesmo. Lá, elas encontram sempre a mesma situação, que é receber um tratamento autoritário e por vezes desrespeitoso de seus patrões, ao mesmo passo em que educam seus filhos, que se tornarão adultos como seus pais. A recém-abolida escravidão ainda projeta uma sombra de atraso no cotidiano dessas pessoas.

A aspirante a escritora Skeeter tem educação acadêmica e os horizontes mais expandidos do que os de seus vizinhos, e reconhece como são desnecessários o preconceito e as medidas tomadas pelos patrões, como a de construir banheiros apenas para seus empregados. A própria personagem também foi criada por uma negra, enquanto sua mãe mais se preocupava em ter status entre suas amigas. Quando Skeeter consegue um emprego no jornal local, decide falar sobre isso – ela vai escrever um livro repleto de relatos de empregadas negras em seus anos de trabalho nas casas de brancos.

Começando por Aibileen (Viola Davis) e depois partindo para a brilhante e rebelde Minny (Octavia Spencer), os relatos vão sendo recolhidos e escritos. Enquanto isso, Skeeter bate de frente com quem destrata as empregadas. E não demora muito para esse grande grupo que elas formam começar a vibrar com a audaciosa empreitada de Skeeter; e embora o livro seja um segredo, os brancos se mostram receosos diante do ar de mudança que invade suas vidas.

O longa foi baseado no romance A Resposta, de Kathryn Sttocket (amiga do diretor Tate Taylor), e, acima de tudo, vem recebido elogios pelas convincentes e notáveis interpretações de seu grande elenco feminino. Pode ser considerado um dos primeiros filmes “sérios” de Emma Stone, que consegue subir mais um degrau em sua carreira. Também há as marcantes atuações das veteranas Viola Davis, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Bryce Dallas Howard e a recém-revelação Jessica Chastain brilham com graça ao lado das outras coadjuvantes. A parte técnica do filme também não deixa a desejar. Sua fotografia, seus planos e seu figurino sustentam bem a vibe de feel good movie.

Mesmo com sua boa estrutura, bonita decoração e sua contagiante empolgação, este filme anda também levantando debates entre seus espectadores e críticos, sobre o próprio retrato feito por ele. Ora bolas, os únicos problemas que os negros tinham no interior dos EUA durante os anos 60 eram apenas ter que usar um banheiro separado para eles nas casas de seus patrões? E essa trama pode ter uma inconsistência em seu espírito: quer ser antirracismo ao mesmo passo em que a possibilidade de mudança na vida dos negros é posta pelos brancos de cabeça mais aberta às diferenças? Apesar de tão bem feito e discutível (como o período em que a história acontece), Histórias Cruzadas não se deixa abalar pelos seus desdobramentos não-intencionais, e isso fica bem claro em seu clima positivista, que com traços de drama e comédia se estabelece como um filme bem definido que não tem pretensão de causar barulho.

Uma de suas grandes sacadas é optar pela boa e velha situação acontecida outrora mas não muito diferente do que acontece hoje em dia. Difícil de questionar o papel de um filme como esse em uma sociedade que ainda insiste em ter seus setores racistas e dá mais valor a quem é rico e tem status do que aos trabalhadores que a sustenta. Ainda mais quando ele tem em sua manga a carta da simpatia e da leve reflexão.


sábado, 21 de janeiro de 2012

"Uma garota que amava o Pearl Jam, o Nirvana..."

Se você fosse uma adolescente nos anos 90, vivesse em uma metrópole, com os nervos e hormônios à flor da pele, que fervia sob a camisa xadrez e sentia o mal-estar da civilização pós-guerras, pós-punk e pós-moderna, o que desejaria que seu namorado (ou ficante – sim já ‘se ficava’ ) tocasse para você na festa de fim de ano da escola? Yesterday? Lady Jane? Lonely Boy?

Se você fosse fã do rock alternativo, e achasse que Seattle era o centro do mundo (pelo menos, do seu), iria querer que ele tirasse Black na guitarra e aprendesse a cantá-la com a ajuda da Letras Traduzidas (não havia internet, celular, Twitter…) e que dissesse que você ficava uma gata de coturno, camiseta branca, camisa ‘lenhador’ xadrez amarrada na cintura, cabelo estrategicamente sem corte e calça jeans larga e surrada, claro.

E claro que você iria saber que The Who é A banda, que o grunge, apesar de ter vindo do inglês ‘sujão’, não era tão sujo assim e que devia muito a Neil Young e Ramones. Mas iria mesmo era se identificar com a briga de Eddie ‘Coração de Leão’ Vedder contra ‘o sistema’. E iria suspirar por seus olhos azuis melancólicos.

Em 1994, iria chorar o fim de uma era com a morte de Kurt Cobain, mas iria se consolar ouvindo Superunknown do Soundgarden e Vitalogy, do Pearl Jam. E ouviria de sua mãe: “Onde foi que errei? Ao menos, as hippies usavam flores no cabelo e eram alegres.”

Menino ou menina, se você foi ‘adolescente 90’, e assistiu a uma das raras sessões que Pearl Jam Twenty teve na última terça, emocionou-se ao ver os garotos da época (hoje trintões) cantarem baixinho, em busca de um tempo não perdido, mas vivido…

É fato que se o assunto é cinema, a geração 60 teve Gimme Shelter. E Cameron Crowe não é Albert Maysles, mas saudade não é para ser comparada nem explicada. É para ser sentida. Disso, o apaixonado diretor entende. A geração 90 também.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 and life keeps going

Em 2012, eu pretendo ser mais desapegado. Pretendo rejeitar agressões de idiotas, assim como a Maggie Gyllenhaal em Away We Go. Pretendo colocar a mão na massa sem medo novamente, a fim de realizar todos meus objetivos. Pretendo olhar por onde ando e tropeçar menos no chão. Pretendo beber e me divertir mais. Pretendo estabelecer definições e expandir ainda mais minha paciência. Pretendo viajar.

Pretendo não ser estúpido o suficiente para misturar vodca com Toddynho – ou seja, não misturar o que não se deve misturar. Pretendo concretizar muito do que ainda está no estágio de preparação. Pretendo gastar mais dinheiro com futilidades indispensáveis, tipo filmes e livros. Pretendo escrever mais, pois o fiz bem pouco em 2011. Pretendo deixar cada um com sua ignorância orgulhosamente instalada e continuar apegado às minhas certezas e vontades.

Pretendo chegar a uma necessária conclusão – remendar o coração ou mantê-lo em pedaços só por via das dúvidas? Pretendo ir mais ao cinema, e de preferência com as ótimas companhias que são esses meus amigos incríveis. Pretendo comprar o tão desejado Converse All Star verde. Pretendo ler mais e expandir os estilos. Pretendo ler Hilda Hilst. Pretendo tentar com mais vontade colocar minha timidez de lado toda vez que meu amigo do entre-pernas tiver uma sugestão. Pretendo fazer tatuagens e piercings.

Pretendo conhecer mais pessoas, fazer mais amizades e manter laços já existentes. Pretendo ser mais Tom Hansen e menos Summer Finn. Pretendo comprar dois dicionários grandes e bonitos. Pretendo continuar com o que já pratico e me faz bem. Pretendo pelo menos em 2012, ser mais movido pelas certezas do que pelas dúvidas e pelas curiosidades. Pretendo rever mais filmes que gosto e pelos quais dedico àquela gostosa nostalgia. Pretendo deixar muita coisa ir e muita coisa vir.

Pretendo não parar de pretender. E caso não caiba tudo em um ano só, que caiba nos seguintes – pois pretendo desacelerar ainda mais o meu imediatismo. E pretendo continuar assim, tanto planejador quanto realizador.

Feliz ano novo para você também. Agora está tocando Pixies.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Milk"

Eu não vou saber o que é olhar para o intimidador azul dos seus olhos por um minuto ininterrupto. Também não vou saber como é passar a mão na sua nuca enquanto te beijo. Também não vou saber como é te beijar depois de você mascar um Trident de melancia. Não vou saber o que é passar meu braço por cima dos seus ombros e sussurrar “bom dia” no seu ouvido. Também não vou saber como deve ser ir ao cinema com você para ver o novo filme do Woody Allen. Não vou saber o que é te ouvir discorrer sobre algum assunto que você conhece como a palma da sua mão.

Eu não vou saber o que é ouvir ao seu lado um álbum inteirinho do The Replacements. Eu não vou saber o que é passar minhas mãos na capa de um de seus livros. Também não vou saber o que é sorrir apenas por te ver sorrir. Também não vou saber como é conversar com você numa piscina ao fim de tarde de um dia de verão, quando não teremos nenhuma responsabilidade além de nos divertir, e dormir sabendo que o despertador não vai tocar anunciando mais um dia de trabalho e estudos pela frente.

Eu não vou saber o que é entrar com você numa loja para comprar um CD que eu adoro. Também não vou saber como sua voz ficaria ao me pedir paciência diante de uma situação em que eu, obviamente, reagiria indo embora depois de quebrar alguma coisa. Também não vou saber o que é ouvir a sua respiração no escuro. Também não vou saber o que é dividir com você uma garrafa de Heineken ou uma lata de Schweppes ou um pacote de Doritos. Também não vou saber o que é dividir com você todos os meus pensamentos e meus sentimentos, e expressá-los apenas com o que te faz feliz. Eu não vou saber o que é quebrar essa parede de vidro que me separa de você.

Eu só sei o que é esperar por você. E por mais que eu queira, às vezes, mudar isso, simplesmente não consigo. Então me coloco, porque quero, à sua espera.

"I am milk
I am red hot kitchen
And I am cool
Cool as the deep blue ocean

I am lost
So I am cruel
But I'd be love and sweetness
If I had you

I'm waiting
I'm waiting for you
I'm waiting
I'm waiting for you."



Garbage