Aconteceu de novo! Filmes independentes estrangeiros, que não angariam grandes valores na bilheteria (mesmo que tenham sido elogiadíssimos pela crítica e por quem viu), tendem a encontrar dificuldades para estrear nos cinemas brasileiros. Isso quando não saem direto em blu-ray e DVD. Os mais recentes casos são
Jovens Adultos e
Shame, dois filmes ovacionados pela crítica ao redor do planeta, que tiveram presença em premiações e até agora não foram exibidos por aqui.
Charlize Theron em cena de Jovens Adultos.
Jovens Adultos teve sua estreia nos Estados Unidos, seu país de origem, em dezembro do ano passado, no ápice da temporada de premiações. Se a distribuidora Paramount não quisesse que o filme pegasse indicações ao Oscar, muito possivelmente não o teria lançado nessa época, colocando nos trailers e nos pôsteres os dizeres “do diretor de
Obrigado por Fumar e
Amor Sem Escalas” (Jason Reitman, que tem quatro indicações), “da roteirista de
Juno” (Diablo Cody, que já ganhou o prêmio) e “ganhadora do Oscar Charlize Theron”. Comentava-se bastante a possibilidade de
Jovens Adultos pegar indicações nas categorias de melhor atriz, melhor roteiro original, e se tivesse um pouquinho de sorte, na de melhor ator coadjuvante (Patton Oswalt) e melhor filme. Para a decepção de seus apoiadores, as indicações a prêmios mais relevantes conseguidas foram ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em um filme de comédia ou musical (para Charlize Theron) e ao Writers Guild of America na categoria de melhor roteiro original.
A data de estreia do filme que não deve ter contribuído muito para sua projeção na mídia. Sabe-se que é nessa época em que os títulos mais ambiciosos são lançados, e um filme pequeno e modesto como
Jovens Adultos pode acabar sendo uma espécie de cachorrinho perdido no meio desses cachorrões de briga como
Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres e
A Invenção de Hugo Cabret. Jason Reitman tem o hábito de lançar seus filmes em festivais, mas quis fazer diferente com
Jovens Adultos. Houve uma sessão secreta para convidados especiais em novembro de 2011. Desde essa ocasião, os elogios vieram às pencas. Na estreia, o filme não fez feio nas primeiras semanas nas bilheterias, e a calorosa recepção da crítica também teve o seu papel.
Bryce Dallas Howard e Joseph Gordon-Levitt em 50%.
Caso o filme tivesse sido exibido em festivais como o de Sundance e Toronto, que são ótimos encaminhadores de títulos para o Oscar, possivelmente a pressão externa feita para a Academia dar indicações ao filme teria sido muito maior, assim como a expectativa do público, já que os festivais exibem os filmes antes de suas estreias oficiais. Mas não foi o que aconteceu. É claro que poderia ter acontecido e ganho o mesmo destino de
50%, muitíssimo bem recebido no Festival de Toronto de 2011, recebeu indicações ao Globo de Ouro, ao Writers Guild of America e ao Independent Spirit Awards – e quando foram divulgadas as indicações ao Oscar 2012, nada. A estreia de
Jovens Adultos, por sua vez, não lhe permitiu que pegasse indicações ao Independent Spirit e ao Screen Actors Guild (considerando o elogiado desempenho de Charlize Theron), duas premiações que lhe teriam ajudado e muito a conseguir alguma presença no Oscar, mesmo que modesta. Resumindo, aparentemente, a fome da distribuidora resultou em uma frustração. Teorias sobre premiações à parte, é nesse momento em que essa situação interfere na estreia de filmes em países como o Brasil.
Geralmente, os filmes saem mais tarde por aqui mesmo.
50% saiu direto em blu-ray e DVD.
Drive teve sua estreia nos EUA em setembro de 2011 e saiu aqui no fim de fevereiro. Assim como
Jovens Adultos,
Shame está meses atrasado, possivelmente pelas mesmas causas. Está claro que filmes que pegam indicações ao Oscar saem por aqui sem muito atraso e são tratados com respeito pelas suas distribuidoras.
Jovens Adultos (que esse mês sai em home video lá nos EUA) teve sua estreia marcada para fevereiro, depois remarcada para março e depois remarcada para abril deste ano.
Um Método Perigoso ficou para abril também – época em que os filmes do Oscar já estariam fora de cartaz. E então? Só porque não há indicações a cultuados prêmios para certos títulos, quem espera por eles é tratado como se não existisse e fica por isso mesmo? Todos esses filmes estão disponíveis para download na Internet. É clichê dizer isso, mas depois nos pedem para assisti-los no cinema em vez de baixá-los. Filmes como esses citados, que acabam sendo exibidos no quase sempre inacessível circuito de arte.
Keira Knightley e Michael Fassbender em Um Método Perigoso.
Tristes casos em que os filmes alternativos são prejudicados pela intenção de se ganhar a maior quantidade possível de dinheiro – sendo que esses filmes nem foram feitos com esse objetivo, o de se tornar uma máquina caça-níqueis. As produtoras são pequenas, fazem os filmes com algum esforço e precisam encaminhá-los para distribuidoras, que estrategicamente definem datas. Quando tropeçam em seus próprios cadarços por lá, as consequências são sofridas desse lado do globo também.
E quem quer ver os filmes nos cinemas, fica a ver navios, ou melhor, as datas de estreia sendo alteradas, como se nem estivesse à espera de
pagar pela sessão.
Alguém vá lá avisar as distribuidoras internacionais que a gente aqui vê filmes alternativos também, e seria muito legal sermos lembrados como espectadores, não como carteiras a serem abertas. Mas espere aí. Isso é utópico, valores como esses não se alteram. A situação não vai mudar.
Que vergonha deles.