sábado, 17 de março de 2012

"Sexualidade é usada para mostrar o distanciamento das relações humanas"

por ÉRICO FUKS
09 de março de 2012

Desde o início de Shame, o diretor Steve McQueen deixa o protagonista bem à vontade em cena. O close no nu masculino, entretanto, em vez de chocar, cria contrastes e traz dúvidas no lugar de certezas. Quanto mais a câmera em close percorre as curvas do corpo, mais abre espaço para divagações sobre a solidão. Michael Fassbender, em uma impressionante atuação sem excessos, faz o papel de Brandon, um viciado em sexo e pornografia, mas que não consegue manter um relacionamento estável. Ao abrir mão do erotismo e intensificar o aspecto psicológico depressivo dos personagens, o diretor traz à luz outra questão. Enquanto o discurso das potências vende uma sociedade cada vez mais conectada, o filme destrói esse paradigma e traz um cenário de pessoas isoladas em sua apatia e suas obsessões. A retratação deste universo pós-moderno, em que o toca-discos de vinil convive ao lado de um notebook, reitera que, diante de uma sobrecarga de informações que incentivam o hedonismo, nunca o mundo passou por tanta falta de identidade.

terça-feira, 6 de março de 2012

Vergonha alheia – quando distribuidoras tratam com desrespeito os cinéfilos brasileiros

Aconteceu de novo! Filmes independentes estrangeiros, que não angariam grandes valores na bilheteria (mesmo que tenham sido elogiadíssimos pela crítica e por quem viu), tendem a encontrar dificuldades para estrear nos cinemas brasileiros. Isso quando não saem direto em blu-ray e DVD. Os mais recentes casos são Jovens Adultos e Shame, dois filmes ovacionados pela crítica ao redor do planeta, que tiveram presença em premiações e até agora não foram exibidos por aqui.

Charlize Theron em cena de Jovens Adultos.

Jovens Adultos teve sua estreia nos Estados Unidos, seu país de origem, em dezembro do ano passado, no ápice da temporada de premiações. Se a distribuidora Paramount não quisesse que o filme pegasse indicações ao Oscar, muito possivelmente não o teria lançado nessa época, colocando nos trailers e nos pôsteres os dizeres “do diretor de Obrigado por Fumar e Amor Sem Escalas” (Jason Reitman, que tem quatro indicações), “da roteirista de Juno” (Diablo Cody, que já ganhou o prêmio) e “ganhadora do Oscar Charlize Theron”. Comentava-se bastante a possibilidade de Jovens Adultos pegar indicações nas categorias de melhor atriz, melhor roteiro original, e se tivesse um pouquinho de sorte, na de melhor ator coadjuvante (Patton Oswalt) e melhor filme. Para a decepção de seus apoiadores, as indicações a prêmios mais relevantes conseguidas foram ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em um filme de comédia ou musical (para Charlize Theron) e ao Writers Guild of America na categoria de melhor roteiro original.

A data de estreia do filme que não deve ter contribuído muito para sua projeção na mídia. Sabe-se que é nessa época em que os títulos mais ambiciosos são lançados, e um filme pequeno e modesto como Jovens Adultos pode acabar sendo uma espécie de cachorrinho perdido no meio desses cachorrões de briga como Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres e A Invenção de Hugo Cabret. Jason Reitman tem o hábito de lançar seus filmes em festivais, mas quis fazer diferente com Jovens Adultos. Houve uma sessão secreta para convidados especiais em novembro de 2011. Desde essa ocasião, os elogios vieram às pencas. Na estreia, o filme não fez feio nas primeiras semanas nas bilheterias, e a calorosa recepção da crítica também teve o seu papel.

Bryce Dallas Howard e Joseph Gordon-Levitt em 50%.

Caso o filme tivesse sido exibido em festivais como o de Sundance e Toronto, que são ótimos encaminhadores de títulos para o Oscar, possivelmente a pressão externa feita para a Academia dar indicações ao filme teria sido muito maior, assim como a expectativa do público, já que os festivais exibem os filmes antes de suas estreias oficiais. Mas não foi o que aconteceu. É claro que poderia ter acontecido e ganho o mesmo destino de 50%, muitíssimo bem recebido no Festival de Toronto de 2011, recebeu indicações ao Globo de Ouro, ao Writers Guild of America e ao Independent Spirit Awards – e quando foram divulgadas as indicações ao Oscar 2012, nada. A estreia de Jovens Adultos, por sua vez, não lhe permitiu que pegasse indicações ao Independent Spirit e ao Screen Actors Guild (considerando o elogiado desempenho de Charlize Theron), duas premiações que lhe teriam ajudado e muito a conseguir alguma presença no Oscar, mesmo que modesta. Resumindo, aparentemente, a fome da distribuidora resultou em uma frustração. Teorias sobre premiações à parte, é nesse momento em que essa situação interfere na estreia de filmes em países como o Brasil.

Geralmente, os filmes saem mais tarde por aqui mesmo. 50% saiu direto em blu-ray e DVD. Drive teve sua estreia nos EUA em setembro de 2011 e saiu aqui no fim de fevereiro. Assim como Jovens Adultos, Shame está meses atrasado, possivelmente pelas mesmas causas. Está claro que filmes que pegam indicações ao Oscar saem por aqui sem muito atraso e são tratados com respeito pelas suas distribuidoras.

Jovens Adultos (que esse mês sai em home video lá nos EUA) teve sua estreia marcada para fevereiro, depois remarcada para março e depois remarcada para abril deste ano. Um Método Perigoso ficou para abril também – época em que os filmes do Oscar já estariam fora de cartaz. E então? Só porque não há indicações a cultuados prêmios para certos títulos, quem espera por eles é tratado como se não existisse e fica por isso mesmo? Todos esses filmes estão disponíveis para download na Internet. É clichê dizer isso, mas depois nos pedem para assisti-los no cinema em vez de baixá-los. Filmes como esses citados, que acabam sendo exibidos no quase sempre inacessível circuito de arte.

Keira Knightley e Michael Fassbender em Um Método Perigoso.

Tristes casos em que os filmes alternativos são prejudicados pela intenção de se ganhar a maior quantidade possível de dinheiro – sendo que esses filmes nem foram feitos com esse objetivo, o de se tornar uma máquina caça-níqueis. As produtoras são pequenas, fazem os filmes com algum esforço e precisam encaminhá-los para distribuidoras, que estrategicamente definem datas. Quando tropeçam em seus próprios cadarços por lá, as consequências são sofridas desse lado do globo também.

E quem quer ver os filmes nos cinemas, fica a ver navios, ou melhor, as datas de estreia sendo alteradas, como se nem estivesse à espera de pagar pela sessão.

Alguém vá lá avisar as distribuidoras internacionais que a gente aqui vê filmes alternativos também, e seria muito legal sermos lembrados como espectadores, não como carteiras a serem abertas. Mas espere aí. Isso é utópico, valores como esses não se alteram. A situação não vai mudar.

Que vergonha deles.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eficiência e sutileza fazem de Histórias Cruzadas um bom "feel good movie"

Em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, nós somos apresentados a uma história num interessante período e local: o sul dos Estados Unidos da América (mais especificamente o estado do Mississippi) na década de 1960. Sabe-se que essa foi a época em que Martin Luther King travava batalhas pela igualdade dos negros na sociedade, ao mesmo tempo em que o preconceito no sul dos EUA era ainda mais espinhoso – sabe-se que tal região do país é conhecida por seu histórico de intolerância diante de grupos minoritários. É esse o quadro encontrado pela jornalista recém-formada Skeeter (interpretada por Emma Stone) ao retornar para a cidadezinha de Jackson.

Se o período é borbulhante em termos de acontecimentos históricos, Histórias Cruzadas decide abordar apenas a faceta doméstica e feminina do relacionamento da sociedade com as pessoas “de cor”, como são chamadas algumas vezes no decorrer do filme. Empregadas negras que trabalham muito e ganham pouco educando (e se afeiçoando aos) filhos de seus patrões brancos, estão presas à corrente do preconceito: suas mães trabalhavam como empregadas para brancos, e por falta de oportunidades, suas filhas farão o mesmo. Lá, elas encontram sempre a mesma situação, que é receber um tratamento autoritário e por vezes desrespeitoso de seus patrões, ao mesmo passo em que educam seus filhos, que se tornarão adultos como seus pais. A recém-abolida escravidão ainda projeta uma sombra de atraso no cotidiano dessas pessoas.

A aspirante a escritora Skeeter tem educação acadêmica e os horizontes mais expandidos do que os de seus vizinhos, e reconhece como são desnecessários o preconceito e as medidas tomadas pelos patrões, como a de construir banheiros apenas para seus empregados. A própria personagem também foi criada por uma negra, enquanto sua mãe mais se preocupava em ter status entre suas amigas. Quando Skeeter consegue um emprego no jornal local, decide falar sobre isso – ela vai escrever um livro repleto de relatos de empregadas negras em seus anos de trabalho nas casas de brancos.

Começando por Aibileen (Viola Davis) e depois partindo para a brilhante e rebelde Minny (Octavia Spencer), os relatos vão sendo recolhidos e escritos. Enquanto isso, Skeeter bate de frente com quem destrata as empregadas. E não demora muito para esse grande grupo que elas formam começar a vibrar com a audaciosa empreitada de Skeeter; e embora o livro seja um segredo, os brancos se mostram receosos diante do ar de mudança que invade suas vidas.

O longa foi baseado no romance A Resposta, de Kathryn Sttocket (amiga do diretor Tate Taylor), e, acima de tudo, vem recebido elogios pelas convincentes e notáveis interpretações de seu grande elenco feminino. Pode ser considerado um dos primeiros filmes “sérios” de Emma Stone, que consegue subir mais um degrau em sua carreira. Também há as marcantes atuações das veteranas Viola Davis, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Bryce Dallas Howard e a recém-revelação Jessica Chastain brilham com graça ao lado das outras coadjuvantes. A parte técnica do filme também não deixa a desejar. Sua fotografia, seus planos e seu figurino sustentam bem a vibe de feel good movie.

Mesmo com sua boa estrutura, bonita decoração e sua contagiante empolgação, este filme anda também levantando debates entre seus espectadores e críticos, sobre o próprio retrato feito por ele. Ora bolas, os únicos problemas que os negros tinham no interior dos EUA durante os anos 60 eram apenas ter que usar um banheiro separado para eles nas casas de seus patrões? E essa trama pode ter uma inconsistência em seu espírito: quer ser antirracismo ao mesmo passo em que a possibilidade de mudança na vida dos negros é posta pelos brancos de cabeça mais aberta às diferenças? Apesar de tão bem feito e discutível (como o período em que a história acontece), Histórias Cruzadas não se deixa abalar pelos seus desdobramentos não-intencionais, e isso fica bem claro em seu clima positivista, que com traços de drama e comédia se estabelece como um filme bem definido que não tem pretensão de causar barulho.

Uma de suas grandes sacadas é optar pela boa e velha situação acontecida outrora mas não muito diferente do que acontece hoje em dia. Difícil de questionar o papel de um filme como esse em uma sociedade que ainda insiste em ter seus setores racistas e dá mais valor a quem é rico e tem status do que aos trabalhadores que a sustenta. Ainda mais quando ele tem em sua manga a carta da simpatia e da leve reflexão.


sábado, 21 de janeiro de 2012

"Uma garota que amava o Pearl Jam, o Nirvana..."

Se você fosse uma adolescente nos anos 90, vivesse em uma metrópole, com os nervos e hormônios à flor da pele, que fervia sob a camisa xadrez e sentia o mal-estar da civilização pós-guerras, pós-punk e pós-moderna, o que desejaria que seu namorado (ou ficante – sim já ‘se ficava’ ) tocasse para você na festa de fim de ano da escola? Yesterday? Lady Jane? Lonely Boy?

Se você fosse fã do rock alternativo, e achasse que Seattle era o centro do mundo (pelo menos, do seu), iria querer que ele tirasse Black na guitarra e aprendesse a cantá-la com a ajuda da Letras Traduzidas (não havia internet, celular, Twitter…) e que dissesse que você ficava uma gata de coturno, camiseta branca, camisa ‘lenhador’ xadrez amarrada na cintura, cabelo estrategicamente sem corte e calça jeans larga e surrada, claro.

E claro que você iria saber que The Who é A banda, que o grunge, apesar de ter vindo do inglês ‘sujão’, não era tão sujo assim e que devia muito a Neil Young e Ramones. Mas iria mesmo era se identificar com a briga de Eddie ‘Coração de Leão’ Vedder contra ‘o sistema’. E iria suspirar por seus olhos azuis melancólicos.

Em 1994, iria chorar o fim de uma era com a morte de Kurt Cobain, mas iria se consolar ouvindo Superunknown do Soundgarden e Vitalogy, do Pearl Jam. E ouviria de sua mãe: “Onde foi que errei? Ao menos, as hippies usavam flores no cabelo e eram alegres.”

Menino ou menina, se você foi ‘adolescente 90’, e assistiu a uma das raras sessões que Pearl Jam Twenty teve na última terça, emocionou-se ao ver os garotos da época (hoje trintões) cantarem baixinho, em busca de um tempo não perdido, mas vivido…

É fato que se o assunto é cinema, a geração 60 teve Gimme Shelter. E Cameron Crowe não é Albert Maysles, mas saudade não é para ser comparada nem explicada. É para ser sentida. Disso, o apaixonado diretor entende. A geração 90 também.