segunda-feira, 25 de abril de 2011

Além de 'Crespúsculo'



Catherine Hardwicke é boa diretora, mas é perseguida por um fantasma: Crepúsculo. Antes de ser execrada por esse quase-filme de quase-vampiros, ela tinha boa fama por Aos Treze e Os Reis de Dogtown. Seu terceiro filme, Jesus – A História do Nascimento, ao contrário dos anteriores, passou completamente despercebido, e também foi dilacerado pela crítica. Agora, ela lançou A Garota da Capa Vermelha, que também anda levando arranhões, mas apenas por ser tão difícil de satisfazer a todos, ao mesmo tempo em que é, definitivamente, um filme digno de atenção.

Trata-se de uma versão dark da clássica história da Chapéuzinho Vermelho. Aqui, o roteiro de David Leslie Johnson, baseado numa ideia do produtor Leonardo Di Caprio, se aprofunda no que a história original oferece de intrigante e inconcebível para o entendimento de crianças. Em A Garota da Capa Vermelha, há tensão sexual, atmosfera de mistério, imprevisibilidade e toda cultura folclórica típica de aldeias, já que é numa delas em que a história se desenrola, centenas de anos atrás. Fora a conexão entre do que há de dark no roteiro e na belíssima concepção visual do filme (repare nas árvores com espinhos anormalmente grandes), ele usa como estrutura aquela ideia de que gente não presta. Numa aldeiazinha no meio do nada e cercada de neve e árvores, em que os conhecidos se casam, têm filhos, morrem por ali mesmo, e os filhos seguem o exemplo, os habitantes criam laços de amizade e confiança. “O Lobo” é um lobisomem que está descontrolado e faz com que as pessoas se tranquem em suas cabanas. O que acontece é que há um certo jogo de interesse na morte do Lobo. Ela é conveniente para quem? Como o Lobo está conectado ao passado daquelas pessoas? E, a grande questão: quem é ele? O clima de mistério acontece magistralmente. As respostas enfraquecem os joelhos.

Mas o que faz muita gente torcer o nariz para este filme, é o fato de que Hardwicke dirigiu o primeiro filme da saga Crepúsculo. Por aí, andam dizendo que A Garota da Capa Vermelha é uma versão “crepusculada” sobre lobisomens e a fábula original dos irmãos Grimm (que foi adocicada pelas adaptações para outras mídias). Ledo engano. Ao contrário do que acontece na saga da escritora Stephenie Meyer, ou nos filmes feitos a partir de seus livros, o romance, aqui, neste filme, faz sentido. Ele ajuda a história funcionar e passa longe de ter aquele tom pastel.

E é difícil imaginar que um filme que reúne no elenco atores como Gary Oldman, Julie Christie e Virginia Madsen seja ruim. Não dá para esquecer de Amanda Seyfried, que foi perfeita para o papel da garota branquela que anda por aí de vermelho. Ela é uma atriz competente, que anda protagonizando muitos filmes e não está longe do momento em que vai surpreender a todos com um desempenho estupendo num filme ideal para tal feito. Em A Garota da Capa Vermelha, ver o elenco caminhando pela neve e lançando olhares de desconfiança às pessoas ao redor é impagável. Os segredos escondidos pelos personagens faz com que sangue seja derramado. E enquanto isso, a câmera sempre ágil de Hardwicke vai deslizando pelo cenário fantasmagórico em ângulos holandeses, belos planos da natureza e aquela típica tremedeira de câmera na mão, coisa que a tal diretora nunca dispensa. A trilha sonora, por sua vez, é um dos pontos altos do filme. Deixar tudo isso passar batido por causa de preconceito para com Crepúsculo é um grande desperdício.

Catherine Hardwicke provavelmente será tida, a partir desta ocasião de estreia de A Garota da Capa Vermelha, como uma artista julgada pelos seus deslizes. Futuramente, talvez isso seja arrumado. Mas ela aparenta nem se importar com isso. Entrega seus filmes e ponto. E enquanto isso não acontece, vale a pena deixar os preconceitos cinematográficos de lado e ver o que ela tem para oferecer. As surpresas podem ser bem agradáveis.

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