sábado, 7 de maio de 2011

Flecha no alvo

The Hunger Games mostra que há futuro na literatura de jovens adultos depois de Harry Potter


[Post atualizado dia 22/03, às 9h40. Texto completamente reescrito]

(Divulgação/Scholastic Press)

Quando eu acordo, o outro lado da cama está frio. É com esta frase que se inicia o livro The Hunger Games (lançado no Brasil pela Rocco Jovens Leitores como Jogos Vorazes), primeiro volume da trilogia homônima de Suzanne Collins, publicada pela Scholastic Press. Uma mistura de sci-fic, suspense e aventura ambientada em futuro de distopia e destruição.

Onde era a América do Norte, se encontra uma nação chamada Panem, que é dividida em 12 distritos e uma capital que os comanda. Uma vez por ano, um reality show chamado Hunger Games acontece. Cada distrito envia dois participantes sorteados: um menino e uma menina que tenham entre 12 e 18 anos, são obrigados a entrarem na arena onde eles têm que lutar até a morte. O ganhador é o único sobrevivente, que levará uma grande quantidade de dinheiro. A história é narrada por Katnis Everdeen, adolescente de 16 anos que se voluntaria a substituir sua irmã mais nova nesse jogo.

Se hoje não é de todo incomum ter uma garota dessa idade como narradora de um romance, vale dizer que ela definitivamente não é um link entre o público e uma autora que pensa se comunicar com os jovens usando gírias e consequentemente fazendo papel de idiota (caso do tenebroso Formaturas Infernais). Katniss é madura e complexa demais para servir disso. Ela é a personificação dos desdobramentos que um governo totalitário promove. Vive no distrito mais pobre de Panem, desde criança é obrigada a caçar para ter carne na mesa e é praticamente o homem da casa. Sua mãe está numa difusa depressão por causa da morte de seu marido, pai das meninas, e Katniss se vê na obrigação de cuidar dela e de sua irmã mais nova. Com o passar dos anos, a protagonista consolida sua visão imediatista da vida – da sociedade, de seus vizinhos quase miseráveis e o descaso do governo para com seu distrito. A brutalidade ao seu redor e seu dever dentro de casa não dão a ela tempo para ter a idade que tem. Ao ingressar na arena do reality show, não hesita em puxar seu arco e flecha para garantir sua sobrevivência entre seus companheiros de mesma faixa etária, que também se jogarão num turbilhão de tentativas de sobreviver matando uns aos outros. Todos querem sobreviver. Alguns receberam treinamento antes, outros não tiveram dinheiro para isso; mas na arena, todos sujam as mãos com o sangue do outro, apesar de serem desiguais em preparo.

Katniss é uma personagem composta por muitas partes. Tem maturidade para abraçar suas responsabilidades, pois sabe que mais ninguém pode estar no seu lugar. Tem consciência do estado em que vive o Distrito 12. Observa as atitudes das outras pessoas com humanidade, mas ela deve proteger sua família antes de si mesma, então sempre tem conclusões matemáticas sobre seus conviventes. Tudo isso ao mesmo passo em que um posicionamento político é exigido dos personagens e não há tempo para futilidades. Essa complexidade, essa carga dramática, definitivamente são difíceis de encontrar em histórias do gênero young adult, ao qual The Hunger Games pertence. Se antes veio Harry Potter, que não foi tão diferente em termos de complexidade, depois surgiram as sagas de Percy Jackson e Crepúsculo, que definitivamente fazem um sucesso estrondoso (principalmente a última), mas deixam a desejar tanto na criatividade da prosa quanto no conteúdo.


A autora de The Hunger Games, Suzanne Collins, leva sua história num jogo de palavras incisivas e objetivas, fazendo a leitura ser magnética e cada vez mais tensa ou chocante. Seus personagens são tão bem construídos em seus cenários que fica difícil de não ter uma visão exata deles dentro da história. Com mestrado em escrita dramática pela Universidade de Nova York, Collins, de 47 anos, antes trabalhava como roteirista para programas da Nickelodeon. É autora da saga de fantasia The Underland Chronicles, mais três títulos avulsos e da trilogia The Hunger Games. O primeiro livro foi lançado em 2008; Catching Fire, o segundo (lançado no Brasil como Em Chamas), em 2009; o terceiro, Mockingjay (aqui como A Esperança), em 2010. Collins diz ter tido a ideia desta saga enquanto assistia TV. Ao trocar de canais, se deparou com cenas de guerra e de reality shows. Grande fã de mitologia e principalmente do mito de Teseu, Collins misturou esses três elementos para criar sua história. Os componentes aparentam ser bem diferentes um do outro, mas o resultado é coeso e impressionante: uma história não vista até então, contada por uma escritora com uma forte marca autoral.

Evidentemente, o fenômeno de vendas que a saga protagoniza pelo mundo culminou em adaptação cinematográfica. O diretor escolhido para o trabalho foi o cultuado Gary Ross, de Pleasantville e Seabiscuit. O roteiro foi escrito pela própria Suzanne Collins, junto de Ross e Billy Ray (de O Preço de uma Verdade). A ótima atriz Jennifer Lawrence, que bem entende de papéis de garotas duronas (como em Inverno da Alma e X-Men: Primeira Classe), foi escolhida entre várias outras concorrentes para o papel de Katniss Everdeen. O filme já está pronto e estreia na sexta-feira dessa semana, dia 23. Catching Fire nem teve sua pré-produção iniciada, mas sua estreia já foi agendada pela distribuidora Lionsgate para ano que vem. Simon Beaufoy (de Quem Quer Ser um Milionário? e 127 Horas) foi contratado para escrever o roteiro adaptado ao lado de Michael Ardnt (Pequena Miss Sunshine e Toy Story 3). Francis Lawrence (Constantine) é o diretor.

Sobre a adaptação, James Rocchi, jornalista do site Box Office Magazine, disse que se trata do melhor filme americano de ficção científica desde Matrix, e que se os próximos filmes forem feitos seguindo os mesmos moldes do primeiro, estaremos diante da raridade que é uma franquia blockbuster valer o dinheiro do ingresso “pela habilidade, emoção e execução”, não meramente por marketing e efeitos visuais. Já sobre o romance de Suzanne Collins, vale dizer que se trata de um daqueles casos em que a excelência da qualidade supera qualquer fenômeno de vendas ou febre entre leitores. É uma peça única.

2 comentários:

Mariana disse...

the hunger games é demais *-* e omg tu viu que o woody harrelson vai interpretar o haymitch??? :D

"a protagonista não é uma espécie de canal entre o público e uma autora que acha que está se comunicando com jovens só porque usa gírias ao mesmo tempo em que faz papel de idiota" = THE HOUSE OF NIGHT UGH

Anônimo disse...

Vi sim! O Woody é perfeito pro papel! Pãtcha ator foda!

E eu estou passando longe dos livros da série The House of Night. Nunca os li, mas nem sinto a curiosidade. Acho que é meu amor pelo meu tempo falando mais alto.