domingo, 15 de abril de 2012

Fora dos eixos

 (Divulgação)

Quando seu futuro é promissor, por qual razão você o temeria? Quando seu futuro se transforma no dia de hoje e ele não é bem do jeito que estava prometido, você faz o quê? O filme Jovens Adultos (Young Adult, 2011) trabalha com essa premissa – tudo fora do lugar, nada como foi prometido e você não sabe o que fazer.

Charlize Theron, em mais uma estupenda interpretação, é Mavis Gary, uma ghost writer de ficção para adolescentes que vive o parágrafo acima. Deprimida, alcoólatra e boca-suja, decide retornar à cidade onde vivia quando jovem com o intuito de reatar um namoro do colegial. O nome do alvo é Buddy Slade (Patrick Wilson), que está casado e tem um bebê recém-nascido: dois itens que são apenas meros detalhes para a anti-heroína maquiavélica e fora dos eixos.

O que acontece com Mavis é bem complicado. Ela está fortemente presa ao passado (observe a metáfora que é o carro dela) e decepcionada com seu presente, que é um futuro não planejado. Insatisfeita com a vida na cidade de origem, Mavis foi atrás de seus sonhos na cidade grande, ao contrário de seus colegas e familiares. Ela fez faculdade e tornou-se bem sucedida no trabalho, o que geralmente acontece com quem segue esse caminho. Mas no dia de hoje, só há o vazio promovido pela sensação de que o que ela fez não foi o suficiente para sentir-se satisfeita.

Ao voltar a Mercury, em Minnesota, Mavis observa que tudo por lá ficou do jeito que ela deixou. As pessoas não mudaram, mas ao contrário dela, está todo mundo aparentemente bem (sendo exceção Matt Freehauf, personagem de Patton Oswalt). O filme trabalha com essas reflexões do que é felicidade para cada pessoa e as decisões que elas tomam para construírem suas vidas – é definitivamente o roteiro mais espinhoso, imprevisível e profundo de Diablo Cody, bem mais parecido com os de seu extinto seriado United States of Tara.

 Charlize Theron e Jason Reitman no set de filmagens (Divulgação)

Jovens Adultos é o mais novo filhote da amizade da roteirista e do diretor Jason Reitman. Anteriormente, ambos levaram para os cinemas o agridoce Juno (2007) e a comédia de horror Garota Infernal (2009), este apenas produzido por Reitman. Mas é neste terceiro filme que ambos estabelecem uma sintonia e ponto final. A direção de Reitman é certeira e se basta no que precisa ser posto na tela, um daqueles casos em que a lente da câmera se torna de fato os olhos do espectador. O roteiro de Cody esbanja personalidade e é saudosista até não poder mais. O contexto musical que a autora geralmente insere em suas tramas é quase uma personagem, lembrando bastante escritores como Elizabeth Wurtzel e Nick Hornby. Os atores estão em cena usando camisetas de bandas como The Breeders e Pixies.

Além do tímido desempenho na bilheteria, o que este filme tem de notável não é apenas seu contexto cheio de pequenas partes e o tão comentado terceiro ato, que convenceu Jason Reitman a assumir a direção, mas a simplicidade e honestidade para colocar à mesa assuntos tão delicados e abrangentes. Peter Travers, crítico da Rolling Stone, bem disse: “justo aviso: as risadas em Jovens Adultos deixam feridas”. A marcante atuação de Charlize Theron, o afiado roteiro e a trilha sonora repleta de clássicos do rock dos anos 1990, também ajudam o filme no que parece ser um de seus objetivos: partir corações, assim como a vida real faz, apesar de todos os sonhos.


(Atualização: em 20/4/2015, às 12h17. O vídeo foi trocado por outro com legendas, e erros de gramática foram corrigidos.)

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