terça-feira, 20 de novembro de 2012

A questão é que...

"Suck the shit out of my ass, you fucker!"

(Foto: divulgação)

Recentemente, assisti a um dos melhores filmes que poderia ver neste ano. E possivelmente, uma das melhores comédias dramáticas que já vi. Falo de Ruth em Questão (Citizen Ruth, 1996) a estreia de Alexander Payne como diretor e roteirista (este cargo, ao lado de Jim Taylor). Curiosidade: é o único roteiro original filmado pelo diretor.

Neste longa um tanto desconhecido e negligenciado, a excelente Laura Dern interpreta Ruth Stoops, uma jovem indigente, usuária de drogas e não muito carismática (vide uma fala dela na linha-fina deste artigo) que se descobre grávida. Sem querer, ela para bem em cima de um dos maiores braços-de-ferro da humanidade: o debate sobre aborto. A moça é disputada tanto por um grupo conservador e religioso que quer lhe desencorajar em sua ideia de abortar, quanto por um grupo de ideias opostas. Cada um bem radical em sua ideologia.

Lendo comentários por aí a respeito deste filme, fiquei espantado com a quantidade de pessoas que o viram como um libelo especialmente sobre aborto. Quem conhece mais a fundo o trabalho de Alexander Payne talvez discorde assim como eu.

Ruth (Laura Dern, na foto) não é nenhuma "wonder girl", é apenas um ser humano (Foto: divulgação)

Apesar de hoje dirigir filmes mais melancólicos como Sideways (2004) e Os Descendentes (2011), os primeiros trabalhos de Payne são terrivelmente atrevidos e imprevisíveis, caso de Ruth em Questão e Eleição (1999). O diretor entra em questões mais sombrias e delicadas através de uma primeira proposta visível. Em Ruth, o grande lance não é dizer se o aborto é correto ou não. O que vejo neste filme é uma sátira – e das mais ásperas – sobre brigas que compramos para provarmos que temos razão, provocarmos barulho por situações ou pessoas que dificilmente mudam.

A eterna competição entre pessoas, como a faiscante de Reese Witherspoon e Matthew Broderick em Eleição, é quase a Disneylândia para Alexander Payne. Dono de um estilo delicioso, ele me faz rir a melhor risada possível. A descompromissada. Afinal de contas, a briga não vai acabar mesmo.


Nenhum comentário: