sábado, 3 de maio de 2014

Morto bom é morto-vivo

(Divulgação/BBC)

Em The Fades, seriado inglês da BBC Three exibido entre 2011 e 2012, um adolescente que respira quadrinhos e cinema se encontra no meio de uma batalha do bem contra o mal – e, para seu desespero, é peça-chave na resolução do conflito. Você já viu nas histórias do Homem-Aranha, da Marvel Comics, um adolescente banal se tornar extraordinário ao descobrir que tem superpoderes. E já viu em diversos outros filmes e seriados a batalha maniqueísta ser abordada, por mais clichê que ela tenha se tornado.

No entanto, o quê de diferente em Fades, além de ter o selo BBC de qualidade, é ser criação de Jack Thorne. Em fevereiro deste ano, o roteirista de 35 anos foi anunciado como responsável pela adaptação de Sandman, cultuadíssimo quadrinho de fantasia escrito por Neil Gaiman, publicado pela Vertigo, marca da DC Comics. O rentável título é alvo de várias tentativas de adaptação desde os anos 1990 – mas o escritor, sempre zeloso, manteve-se próximo da obra desde que a assumiu, impedindo más adaptações de acontecerem. Gaiman também está envolvido no filme de Sandman que a Warner Bros. desenvolve atualmente, de modo que fica clara sua aprovação de Thorne. O roteirista também está envolvido na adaptação de O Oceano no Fim do Caminho, romance de Gaiman publicado ano passado.

O inglês Jack Thorne. Um de seus trabalhos mais recentes é o filme Uma Longa Queda, baseado no romance homônimo de Nick Hornby (Foto: reprodução/internet)

A dica é resgatar Fades para se ter uma noção da competência de Thorne e do que ele pode fazer com ambas as adaptações. Experiente na tevê (Skins e Shameless estão em seu currículo), no teatro, no cinema e no rádio, o sujeito tem boa mão para contar histórias.

Paul (interpretado por Ian De Caestecker) é o tal adolescente do primeiro parágrafo. Ele se urina toda noite com seus pesadelos sobre o apocalipse e, ao contrário da maior parte da população, é capaz de ver espíritos de gente morta: os monstruosos "fades" do título ("desvanecedores", em português). Estes são, basicamente, restos de vida humana que se recusam ir ao além e agora querem causar o caos na Terra. Quando eles começam a tomar forma humana novamente e colocam em prática o plano de dominação, Paul cai na jogada ao lado dos "angelics", grupo de pessoas que também podem ver os fades e partem para o contra-ataque. No elenco, ainda estão os competentes Natalie Dormer e Joe Dempsie, que hoje ganham espaço em Game of Thrones, da HBO. De Caestecker está em Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D., da ABC.


(Divulgação/BBC)

O velho braço de ferro entre o bem e o mal ganha aqui um novo fôlego: Thorne escolhe o caminho da perspicácia para fugir do óbvio e tem sucesso nisso. Com diálogos espertos, clima de quadrinho e efeitos de qualidade (práticos e especiais), a trama toma rumos inesperados e se conclui em uma temporada de seis episódios enxutos.

Apesar de elogios da crítica e de ter ganho o Bafta 2012 na categoria de melhor série dramática, Fades tropeçou para achar sua audiência e acabou sendo cortada da BBC Three. Na ocasião, a emissora contia gastos, buscava se focar em outros gêneros para redefinir sua programação e formar um público. O que torna engraçado o fato de que, assim como seus mortos-vivos, a série fique zanzando perdida por aí agora, sem rumo. Permanece sua qualidade.

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