domingo, 9 de agosto de 2015

Resenha: 'Quarteto Fantástico', de Josh Trank

(Imagem: Divulgação/Fox)

Quando o norte-americano Josh Trank foi anunciado em 2012 como diretor de um novo filme baseado no Quarteto Fantástico, supergrupo icônico da Marvel, não se tratava de uma contratação ordinária. Naquele mesmo ano, Trank colhia merecidos bons frutos vindos de seu primeiro longa-metragem, Poder sem Limites. A imprevisível ficção científica mostra três adolescentes que ganham habilidades sobrenaturais após entrar em um misterioso buraco no chão e se transformam em arquétipos das histórias de super-heróis. O orçamento era modesto, mas a ambição de Trank, à época com 27 anos, era colossal. Poder sem Limites lucrou mais de US$ 120 milhões nas bilheterias – dez vezes mais que o investido – e fez a crítica aplaudir a inventividade da obra ao renovar a estética de gravação caseira e a boa condução tanto do drama quanto dos efeitos especiais. O excepcional primeiro passo garantiu ao diretor, na mesma 20th Century Fox que abrigou seu primeiro filme, a oportunidade de comandar o esperado Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015), reinício da franquia cinematográfica recém-lançado.

Com roteiro assinado por Trank, pelo produtor Simon Kinberg e Jeremy Slater, o filme chega carregando nas costas a responsabilidade de superar os outros três desastrosos que o antecederam. O primeiro, de 1994, é tão ruim que chega a ser risível – uma das pérolas dos filmes B produzidos por Roger Corman. Nem foi lançada comercialmente. Onze anos depois, já sob as asas da Fox, outra tentativa de adaptação foi feita. Rendeu dois filmes dirigidos por Tim Story, lançados em 2005 e 2007. São tolos e rasos que doem.

A tarefa do novo diretor, então, não era necessariamente difícil. Em tom de correção desse passado, o novo Quarteto consegue ir além de superá-lo. Ele chega com a grandeza de quem tem forte identidade.

Baseado na elogiada fase dos quadrinhos chamada Ultimate (2004-09), criada por Brian Michael Bendis, Mark Millar e Adam Kubert, Quarteto se inicia com 15 minutos brilhantes que referenciam produções de Steven Spielberg da década de 1980 pelo antológico estúdio Amblin, como De Volta para o Futuro, Os Goonies e E.T. – O Extraterrestre. O novo Quarteto Fantástico, segundo o diretor, é uma “Amblin sombria”. Trank também buscou inspiração em clássicos de David Cronenberg que misturam ficção científica e terror: A Mosca e Scanners – Sua Mente Pode Destruir, também dos anos 80. O estilo body horror de Cronenberg, as más consequências de façanhas científicas e o absurdo também fazem parte do pacote concebido por Trank. E é com essas influências que ele nos apresenta sua visão do quarteto Marvel.

O ambicioso cientista Reed Richards (Miles Teller) é convidado por Franklin Storm (Reg E. Cathey), presidente de um instituto que recruta jovens talentos da ciência, a se juntar a um projeto que busca deslocar matéria para outras dimensões. Richards irá trabalhar com a eficiente Susan (Kate Mara) e o rebelde Johnny (Michael B. Jordan), filhos de Storm. Arrogante, porém essencial à empreitada, Victor von Doom (Toby Kebell) também é recrutado. Ele amarga ressentimentos por um passado conturbado com a família Storm. Victor é um ex-prodígio desgarrado de Franklin e tem uma paixão não correspondida por Sue. Ben Grimm (Jamie Bell), amigo de infância de Reed e colega de experimentos científicos, também entra no projeto.

O trabalho em conjunto do grupo dá certo, mas só em parte. Ao voltarem de uma viagem à outra dimensão, eles sofrem efeitos colaterais. Reed se torna capaz de esticar seu corpo como se fosse de borracha. Sue pode ficar invisível e projetar campos de força. Johnny se torna uma tocha humana. Ben agora é um monstrengo de pedra. Victor pode mover objetos com a mente, sofre graves danos em sua pele e é o único que não consegue voltar da dimensão. São cenas horrorizantes e de deixar os nervos em frangalhos. Os jovens ambiciosos que contestam instituições antigas e buscam conhecimento ganham, literalmente, superpoderes. Ou "anomalias", como define Sue. Agora eles são Sr. Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana, Coisa e Doutor Destino.

 Jordan (à esq.) e Kinberg: o ator negro foi rejeitado por parte dos fãs dar vida ao herói Tocha Humana, originalmente branco; o roteirista e produtor teria sido instrumento de interferência da Fox (Imagem: Collider)

Impossível Quarteto Fantástico não fugir da frequente história de origem em filmes de super-herói, mas Trank acerta ao fazê-la conceitualmente – a forma mais original possível. Focado em personagem, Quarteto os constroi com sutilezas e desenrola sua história sem pressa. O tom é de seriedade e chega a ser melancólico em alguns momentos – embora haja alívio cômico em Johnny –  e isso o diferencia radicalmente de seus antecessores e dos vários últimos filmes de heróis dos últimos anos. Não há festejo sobre os superpoderes. Os personagens estão desolados. O supervisor do projeto tem interesse em militarizá-los.

O elenco de Trank é eficiente e esse é um dos melhores aspectos do filme. Teller vem de uma recente atuação elogiada em Whiplash. Mara e Cathey têm indicações ao Emmy pela série House of Cards. Jordan tem aclamação crítica por Fruitvale Station. Bell tem atuação faiscante em Billy Elliot. Kebell é marcante em Controle.

No entanto, o promissor conjunto de ideias e acertos que compõem Quarteto Fantástico não diminui os erros na tela.

Ben e Victor carecem de profundidade, assim como os efeitos especiais, em alguns momentos, de capricho. No terceiro ato, há uma crassa quebra de ritmo. Neste momento, a ótima ficção científica de Josh Trank apresenta um problema de identidade. Começa a se transformar em um filme de super-herói. Surge uma inexplicável pressa para concluir a história. Não há encaixe com o ritmo narrativo usado antes. É como se fosse um remendo, e dos mais desastrados.

E talvez seja.

Diretor versus estúdio

Pelo menos é o que sugerem diversos boatos. Rusgas nos bastidores entre Trank e Fox teriam relação com isso. A ambição autoral do diretor teria colidido com a lógica de lucro dos grandes estúdios. Além disso, muito se falou do comportamento do diretor no set. Trank teria sido pouco comunicativo, teve dificuldade de tomar decisões e postura de confronto para interagir com os colegas. Aconteceram refilmagens das cenas finais e Trank esclareceu no Twitter que elas foram comandadas por ele próprio, e não pelos produtores Kinberg e Hutch Parker, como diziam sites de cinema. Stephen Rivkin, indicado ao Oscar pela edição de Avatar, foi chamado para ajudar a concluir o filme. O diretor desapareceu da divulgação.

O desconexo terceiro ato na tela e as explicações nem um pouco convincentes sobre as tais rusgas que Kinberg e Trank fizeram uma entrevista ao Los Angeles Times não fazem os boatos perderem força – pelo contrário, pouco esclarecem o caos. Pessoas ligadas à produção de Quarteto Fantástico têm falado anonimamente à imprensa sobre o assunto. Os pontos de vista são divergentes.

Trank no set de filmagens (Imagem: Collider)

A Entertainment Weekly ouviu que a Fox teria levado o diretor à exaustão, cortou dezenas de milhões de dólares do orçamento (avaliado em US$ 122 milhões) e forçou diversas mudanças.

Na última quinta-feira (6), após várias críticas bombardearem o filme, em um tweet rapidamente deletado, Trank ateou fogo à situação: “Um ano atrás, eu tinha uma versão fantástica para isso [Quarteto]. Teria recebido excelentes críticas. Você provavelmente nunca a verá. Essa é a realidade, entretanto”.

Fontes da EW alegaram à revista que a ausência de Trank do marketing tinha a inteção de protegê-lo da opinião pública, o que contradiz as sugestões de que ele foi, na verdade, calado pela Fox.

Um filme escrito por Kinberg para a nova leva de Star Wars da Disney teria Trank como diretor, mas ele deixou o cargo alegando que precisava de dedicar a projetos menores para se recuperar do cansaço que Quarteto lhe trouxe.

Por ora, será difícil de saber objetivamente o que aconteceu durante as filmagens de Quarteto Fantástico. O falatório precisa ser trocado por verdades – e isso é praticamente impossível, uma vez que grandes estúdios escondem picuinhas de bastidores como segredos de estado.

Outras dúvidas são se um dia conheceremos a versão original de Trank para este projeto ao qual ele se dedicou com tanta paixão; o que acontecerá com sua carreira, ainda no início; e se a sequência agendada para 2017 acontece ou não.

Desde o início da produção do novo filme, ele tem enfrentado grande negatividade do público diante do projeto. Quando Michael B. Jordan, negro, foi contratado para dar vida a um personagem originalmente branco, os fãs xiitas dos quadrinhos não pouparam veneno nas redes. Agora, são críticas exageradamente negativas que têm afogado o filme. A bilheteria neste primeiro fim de semana foi péssima.

“Acho que uma parte de mim precisa da adversidade do resto do mundo para eu me sentir motivado a provar às pessoas que elas estão erradas”, disse Trank, em outra entrevista ao LA Times. “E eu fiz cada escolha neste filme sabendo que as pessoas as questionariam.”

Ultimate Fantastic Four #39, na arte Salvador Larroca (Imagem: Reprodução)

O resultado final é um filme de ficção científica dos bons versus um filme de super-herói de linha de produção; a perceptível rixa entre um diretor de ambição autoral versus um grande estúdio capitalista. O cinema baseado em gibis de super-heróis podia ter ganho um de seus grandes momentos.

Vale ressaltar que os deslizes não comprometem os acertos de Quarteto Fantástico, mas ele com certeza não é a formidável adaptação que a família da Marvel tem o potencial de render. Três tentativas e muitos anos de espera entre elas não bastaram para isso acontecer.

A perda é mútua.


PONTO POSITIVO A ideia conceitual de Trank para o Quarteto é formidável, mas...
PONTO NEGATIVO
... a mudança de ritmo no terceiro ato é um balde de água fria
AVALIAÇÃO 
Bom

Estreou quinta-feira (6/8). Classificação indicativa: 12 anos. Duração: 100 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: 20th Century Fox.

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