Então tá.
Ontem, quem eu vejo andando de bicicleta (de bicicleta mesmo) na mesma calçada que eu estava enquanto ia para escola? O Trombadinha. Ele me reconheceu. Eu o reconheci, e parei de andar. Ele olhou para mim. E conversou comigo como se eu fosse um coleguinha dele, na maior cara de pau. E veio me perguntando o que eu tinha para dar para ele. Eu respondi: "Nada". Mentira! Nas duas ocasiões eu poderia muito bem dar meu celular e mais alguns trocados para ele comprar algo tipo drogas, sabe? Mas eu não cedi. E assim foi. Ele insistia, e eu também. Pedindo e eu negando. E ele de bicicleta. E me pediu para "olhar na bolinha do olho, alemão". Eu podia morrer à toa. E eu não devia contar para ninguém que eu o vi de novo. Minha resposta, entre risadas sinceras: "Tá bom" (aí está a vantagem de se irônico com gente ignorante). Então ele foi embora porque precisava ir para casa. "Deus te abençoe". E ele foi embora. Reagi com risadas e a frase "não acredito, mas que zica!". Cheguei a pensar que dessa vez ele ia agir feito um assaltante de verdade: pular no meu pescoço, rolar comigo naquela calçada e ainda me deixar descalço. Mas nããão, as ameaças com a mão debaixo da camiseta foram o suficiente. Mas ah, contra ele eu me garantia. Menor que eu e magro feito um palito. Nunca fui do tipo brigão, mas nada como aproveitar essas oportunidades para através de chutes deixar claro como vale a pena ser bonzinho e pagar todas as contas.
Depois fiz o que deveria ser feito: denunciei o Trombadinha na base dos policiais ali na praça, praticamente vizinha do lugar onde o Trombadinha veio tentar me assaltar. Ele não levou nada de mim, repito, mas de um garoto do segundo ano, bem em frente a escola, ele levou um desses cartões usados para pagar passagem de ônibus.
Na hora da saída, a ronda escolar estava rondando (é, eu sei) as ruas daquela região.
Consciência tranqüila, mais experiência com os manos e sem sensação de culpa.
Mas esse não é o ápice desse post, não mesmo. David Carradine morreu. Como assim? Tá, as pessoas morrem, mas observe:
A polícia que investiga o caso acredita que Carradine morreu por uma asfixia acidental depois de praticar uma forma perigosa de masturbação, chamada de "asfixia auto-erótica" (um jogo sexual em que os jogadores sentem prazer ao serem estrangulados parcialmente). (Fonte.)
Poucos morrem com tanta dignidade e ironia. Da última vez foi o grande Heath Ledger. A minha ficha não caiu até agora, para os dois casos.
Tsc, grande Carradine. Eterno Bill, de Kill Bill. Estou muito triste. Mas assim vai a vida, né? Com gente morrendo tentando ter orgasmos.
Aqui ele:

Aos 72 anos. Não era muito jovem, eu sei, mas sempre tinha coisas legais para compartilhar com os cinéfilos.
Conclusão desse post e dos anteriores: a vida é maluca, e nós vamos enlouquecendo junto, mas todas as escolhas difíceis que nós tomamos no nosso cotidiano podem nos ajudar a deixar com os pés no chão.
Pensei em encerrar isso aqui com Crazy, cover do Seal que a Alanis Morissette fez, mas essa loucura da cidade grande me força a deixar isso aqui:
"Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais."
Elis Regina (R.I.P. Zé Rodrix) - "Casa no Campo"



