quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Who the fuck is Jane Goldman?

[Atualização: 12/6/2014, às 21h28 – texto revisado]

(Foto: The Times Magazine/Reprodução)

Não se pode negar que Jane Goldman também é conhecida por ser esposa de um dos nerds mais respeitados deste planeta: o apresentador de talk-show Jonathan Ross. Ela tem também suas marcas registradas: um volumoso par de seios e cabelo vermelho numa tonalidade de lápis-de-cor da Faber-Castell, que sempre chamam atenção nas aparições do casal em eventos. Mas seria injusto reduzir Jane a esses rótulos, o que acontece frequentemente na internet. Porque além do marido, dos seios e do cabelo, ela é roteirista e produtora de filmes, e escritora, além de já ter trabalho como jornalista (e ex-apresentadora de tevê e ex-modelo de sutiãs para a Fantasie, diga-se de passagem).

Jane é londrina e nasceu em 1970. Ela vive na cidade até hoje, em um casarão com vários animais de estimação exóticos, seu marido e os três filhos que teve com ele. Ela sempre quis escrever e por isso foi enviada, aos 13 anos de idade e por vontade própria, à uma universidade para tirar suas "O levels" em jornalismo. Conheceu Ross aos dezesseis, enquanto trabalhava como colunista para o tabloide Daily Star. Eles iniciaram um namoro e casaram-se dois anos mais tarde.

 Jane Goldman e Jonathan Ross na première de Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte, em 2011. (Foto: Aceshowbiz/Reprodução)

Colunista, escritora e apresentadora

Jane deixou o tabloide quando percebeu a incoerência que havia em trabalhar lá. Fotos com seu marido eram roubadas de sua mesa e colocadas na primeira página do jornal. Na década de 1990, ela escreveu para revistas de games como Zero, Sega Zone e Game Zone.

Em 93, veio o primeiro livro, Thirteen-Something, que também é o primeiro de uma série do gênero young adult ("jovens adultos", traduzindo) repleta de dicas e sábios conselhos para adolescentes. Três anos depois (ao mesmo tempo em que participava junto de seu marido no conto The Facts in the Case of the Departure of Miss Finch, de Neil Gaiman, amigo dos dois), veio Streetsmarts: A Teenagers Safety Guide. Já em 97, três livros de Jane foram publicados: o terceiro YA, Sussed and Streetwise, e os dois volumes de The X-Files Books of the Unexplained, sobre o seriado Arquivo-X. Esses dois tornaram-se best-sellers e permaneceram um bom tempo em listas de livros mais vendidos. O livro seguinte foi publicado três anos mais tarde: Dreamworld (foto), romance de suspense sobre uma jovem policial que investiga um assassinato que acontece num parque de diversões. A ideia veio quando Jane e Jonathan, numa visita à Disneylândia, foram levados aos túneis subterrâneos do parque por um funcionário. O livro foi elogiado e hoje tem status de cult following.


O momento em que Jane começou a ser mais conhecida pelo público é uma das curiosidades mais intrigantes sobre sua carreira. Ela apresentou, entre 2003 e 2004, no canal Sky Living, um programa sobre investigação paranormal que levava seu próprio nome: Jane Goldman Investigates (foto acima). Casos de possessão, poltergeists, conversas com mortos, rituais de bruxaria – interesses assumidos da apresentadora – eram objetos de investigação dela. Jane também já disse que é mais reconhecida pelo seu programa do que pelos seus livros.

Em 2007, ela publicou outro livro. Do The Right Thing é o mais recente da série de guias para adolescentes. Desde então, a autora vem trabalhado com roteiros.

Roteirista

 Jane no set de Stardust com o ator Mark Strong. (Foto: Neil Gaiman's Journal)

Da escrita de livros, Jane pulou para a escrita de roteiros. Foi uma das roteiristas da sit-com de curta duração Baddiel’s Syndrome, em 99. Mas sua grande oportunidade veio alguns anos mais tarde, quando o cineasta Matthew Vaughn conseguiu os direitos de adaptação do romance Stardust, de Neil Gaiman. Vaughn precisava de alguém para trabalhar junto dele no roteiro. Foi quando Gaiman lhe apresentou Jane. O diretor e a escritora se tornaram amigos. Juntos, escreveram a adaptação de Stardust, que estreou em 2007. O filme se saiu bem nas bilheterias, na crítica e no público. Jane e Matthew levaram para casa o Hugo Award na categoria de “Best Dramatic Presentation, Long Form”.

A parceria já estava formada, mas só o projeto seguinte levou os dois para o reconhecimento universal: Kick-Ass, adaptação da HQ homônima de Mark Millar e John Romita Jr. O processo de produção e distribuição foram bem difíceis (mesmo com o nome de Brad Pitt na lista de produtores) devido à violência no filme. Mesmo com dificuldades, como orçamento limitado e diversas portas fechadas, Kick-Ass saiu em 2010, teve um desempenho morno nas bilheterias e recebeu elogios rasgados da crítica. A qualidade da obra trouxe à tona de uma vez por todas a competência da dupla. Vieram indicações ao British Independent Film Awards nas categorias de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado, entre indicações a outros prêmios. Tornaram-se o novo alvo dos produtores da indústria cinematográfica. Kick-Ass tornou-se um novo clássico cult mesmo antes de seu blu-ray chegar às lojas. Jane foi co-produtora do filme.

Uma curiosidade: em entrevista de divulgação do filme, ela falou sobre a parceria com Vaughn que “ele é o arquiteto” e ela faz o “trabalho de construção e de decoração interna”.

A fama pós-Kick-Ass

Jane Goldman e Matthew Vaughn no Empire Awards de 2010. (Foto: blog What's On the Media/Reprodução)

Depois deste feito, a dupla começou a colher seus frutos. Eles trabalharam novamente com uma adaptação. Junto de Peter Straughan, levaram para a língua inglesa o filme iraniano HaHov: The Debt foi lançado em 2011 e teve bom recebimento da crítica (chegou no Brasil direto em DVD como A Grande Mentira, só no ano seguinte).

Em seguida, veio X-Men: Primeira Classe. Vaughn aceitou ser diretor no projeto e levou Jane junto dele para a nova empreitada. Ambos escreveram a versão final do roteiro que já havia sido feito por Ashley Edward Miller e Zack Stentz (de Thor). A estreia foi em 2011, com direito a bom desempenho na bilheteria e mais elogios da crítica. Hoje, ele é considerado um dos melhores "X-filmes". A dupla ajudou o roteirista Simon Kinberg a elaborar a trama da sequência, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, lançada em 2014.

Em 2012, veio a primeira experiência solo de Jane como roteirista: A Mulher de Preto é uma adaptação do romance de mesmo nome de Susan Hill. A produção é da Hammer Film, casa de clássicos do horror inglês, que recentemente reabriu suas portas e retomou as atividades. Mais uma vez, vieram elogios da crítica e bom faturamento na bilheteria.

Em outubro de 2014, estreia mais uma parceria de Jane e Vaughn: O Serviço Secreto (Kingsman: The Secret Service), baseado no quadrinho do trio Mark Millar, Dave Gibbons e do próprio Vaughn.

Um dos projetos engatilhados de Jane é Dan Leno and the Limehouse Golem, baseado no romance de Peter Ackroyd. A produção é da Number 9 Films, com a Film4 e a UK Film Council. Conversando com fãs pelo Twitter, Jane comentou que está muito feliz, pois o livro é "maravilhoso" e ela "sempre quis adaptá-lo, mas alguém tinha os direitos" antes dessa oportunidade. Disse também que Dan Leno é um de seus livros prediletos e que ele é "magnético e atmosférico". Outro filme interessante é a adaptação do quadrinho de ficção científica Nonplayer, escrito e desenhado por Nate Simpson. Aqui, a produção fica por conta da Warner Bros.

Hoje

Ao contrário dos filmes, os livros que Jane Goldman escreveu tiveram mais sucesso em sua casa, na Inglaterra. Foram traduzidos para alguns países, mas nunca para o Brasil. O que a carreira como roteirista de Jane pode fazer é mudar essa situação. Seus livros poderiam ganhar novas edições. Ou ela poderia escrever outros. Uma vez que seus roteiros são tão intrigantes e bem amarrados, talvez seus livros sejam tão bons quanto. (No caso de Dreamworld, lido pelo blogueiro que vos escreve, esses pontos são marcados.)

O fato é que Jane está alcançando cada vez mais a fama que merece Suas obras não são simplesmente fábricas de fãs-que-aparentam-ter-algum-tipo-de-retardamento-mental (estou falando de vocês, fanáticos pela saga Crepúsculo). Elas sempre têm uma estrutura, um desenvolvimento e um significado firmes. Roteiristas não recebem tanta atenção da mídia, mas pelo menos entre quem trabalha na indústria, eles sempre são caçados e observados. Se seguirmos essa linha de raciocínio, Jane já pode ser considerada uma roteirista em alta.

E que venha mais livros e roteiros da mulher de cabelo incrivelmente vermelho. Quem aprecia seu talento está no aguardo.

sábado, 24 de julho de 2010

Cores berrantes, violência e destruição

Filme de produção difícil, Kick-Ass é anárquico ao mesmo tempo em que é apaixonante

 (Foto: Lionsgate Films)

Não é sempre que o cinema expele por sua uretra pérolas como Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, EUA, 2010). Dirigido por Matthew Vaughn, que escreveu o roteiro junto de seu braço-direito Jane Goldman, baseando-se na HQ homônima de Mark Millar e John Romita Jr., Kick-Ass é o tipo de filme adaptado dos quadrinhos que se encontra na mesma linhagem de Watchmen, Sin City, Batman – O Cavaleiro das Trevas etc. Engajado em si mesmo, desinteressado em moralismo, extremamente violento, uma bomba atômica de emoções. Quem assiste ao trailer pode pensar que o filme é bem menos que isso.

 Em boa atuação, Aaron Johnson é o herói atrapalhado mas de grande coração. (Foto: divulgação)

Mas para começar de um bom ponto, vamos à sinopse: o adolescente Dave Lizewski (interpretado muito bem por Aaron Johnson, o John Lennon de Nowhere Boy) quer achar um meio de expressar sua insatisfação por seu banal cotidiano. Fã de histórias em quadrinhos, perfeito nerd, decide comprar pela internet uma roupa de mergulho no mínimo ridícula para se tornar o herói “Kick-Ass”. Dave toma muitas surras, mas se torna uma celebridade da Internet. Esse fator liga o filme à nossa realidade de forma bem adorável: o que você acharia de ver no YouTube o vídeo de um cara que quer bancar o super-herói? O que você faria se visse alguém sendo assaltado? Ligaria para a polícia? Impediria? Este filme trabalha com isso: o altruísmo do ser humano é genuíno o suficiente para haver nele, mesmo que bem escondidinho, um super-herói? Mais tarde, Dave conhece os verdadeiros vigilantes: os brilhantes Big Daddy (Nicolas Cage) e sua filhinha Hit-Girl (Chloë Grace Moretz, ótima). Os três acabam se envolvendo num grande esquema do mafioso Frank D’Amico (Mark Strong). O único ator que não funciona é Christopher Mintz-Plasse, que faz papel do Red Mist, filho de D’Amico. É um desperdício de personagem, pois Mintz-Plasse não dá conta do recado.

 Nicolas Cage e Chloë Grace Moretz são Big Daddy e Hit-Girl, respectivamente. Duas das grandes surpresas do filme. (Foto: divulgação)

Antes mesmo da aguardada estreia de Kick-Ass, muita polêmica já envolvia a produção do filme. Matthew Vaughn quis ser fiel à HQ. Foi isso o que ele fez – e é exatamente esse o motivo pelo qual o filme foi desenvolvido de forma independente. Mais difícil ainda foi conseguir uma distribuidora. Nem o nome do Brad Pitt na lista de produtores ajudou muito. As distribuidoras, segundo o que Vaughn disse em entrevista ao Omelete, queriam “podar o filme”. Uma chegou a pedir para o diretor retirar todas as cenas da Hit-Girl e refilmá-las, fazendo dela uma garota de 16 anos, já que a retratada original tem aproximadamente 12 anos, é uma assassina impiedosa e fala palavrão. O entrevistador Érico Borgo perguntou: “Você foi rejeitado por alguns programas de financiamento. Tem algum conselho quanto a isso?”. Vaughn respondeu: “Acredite no seu roteiro e mande todos se foderem.” (sic) Não é à toa que ele e Jane Goldman ganharam carta branca da 20th Century Fox para fazerem X-Men: First Class, que estreia ano que vem. Será a terceira vez que Vaughn e Goldman trabalham juntos. A primeira vez foi com o bem sucedido Stardust - O Mistério da Estrela, baseado no romance de Neil Gaiman.

Atualmente Mark Millar e John Romita Jr. trabalham no segundo volume da HQ: Kick-Ass – Balls to the Wall, cuja adaptação para o cinema, é claro, já foi confirmada, e com o envolvimento de Matthew Vaughn. E isso é ótimo.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

"(...) não se vai acabar o mundo..."

“... ainda cá ficaremos milénios e milénios em constante nascer e morrer, e se o homem tem sido, com igual constância, lobo e carrasco do homem, com mais razões ainda continuará a ser o seu coveiro.”



José Saramago.