sexta-feira, 13 de maio de 2011

Thor é um triunfo em proporções, digamos, "trovejantes"


Thor é um êxito que entrou na história das adaptações cinematográficas de quadrinhos da Marvel. Também é, provavelmente, seu filme mais ambicioso e de caráter mais experimental. Em termos de ambição, aparentemente perderá para um que será lançado ano que vem: The Avengers, que reunirá uma grande parcela de personagens apresentados em todos os filmes da Marvel distribuídos pela Paramount.

E o motivo pelo qual Thor pode ser classificado como um filme ambicioso e experimental é o fato de que, até então, os filmes baseados em HQs da Marvel usam como estrutura de roteiro a ciência e a tecnologia. Mesmo expandindo tais elementos para níveis fantasiosos, eles ainda têm um pé na nossa realidade, o que acaba nos aproximando das histórias. No caso de Thor, mesmo havendo ciência e tecnologia para responder por alguns acontecimentos, quase todos os segundos de filme se agarram à existência de seus personagens em outra dimensão: o reino de Asgard. Não é fácil para qualquer um engolir algo assim. Essa história em quadrinhos ou em animações é uma coisa, uma vez que nessas mídias, a liberdade de criação é bem menos limitada. Mas num filme, haha, a coisa é bem outra: haja criatividade e coragem para adaptar. Deve ter sido um processo quase cirúrgico. Antes da estreia, as notícias sobre Thor pareciam ser meio estabanadas: Kenneth Branagh na direção? Chris Hemsworth, um desconhecido, como protagonista? Isso sem mencionar o inferno que foi fazer uma adaptação cinematográfica de Thor. Há quase vinte anos esse projeto existe, passando de estúdio para estúdio, de diretor para diretor e por aí vai. E mesmo que aparentando estar na corda bamba, o projeto foi concretizado e a resposta está aí: conseguiram fazer uma beleza de filme. Mesmo sendo fantasioso em níveis (perdão pelo trocadilho) trovejantes, é magnético, convincente e tem um coração que bate com entusiasmo.

Stan Lee (cuja ponta é mais uma vez sensacional) sempre disse que Thor deveria ter ressonâncias shakespearianas. Então, a contratação de Kenneth Branagh para dirigir fez sentido. Sua experiência em Shakespeare no cinema é sólida. Muita gente andou criticando os ângulos holandeses, mas eles são bem encaixados, não exagerados. Até contribuem para firmar a história como algo grandioso. As atuações são bem eficientes, e Tom Hiddleston (Loki) e Natalie Portman (Jane Foster) são os que mais chamam atenção, em performances brilhantes. Hiddleston é um charme e este filme deve funcionar para ele como uma abertura de portas. Natalie agracia seus fãs com sua exigente flexibilidade e curiosidade. Uma atriz que fez filmes underground como Cisne Negro, retorna a um papel coadjuvante marcante num blockbuster. O mesmo sobre Stellan Skarsgård (Erik Selvig), um ator de filmes alternativos (e brutais, como Dogville e Ondas do Destino, de Lars von Trier), mostra a cara neste projeto tão diferente de outros que têm seu nome nos créditos. Mas a grande surpresa é Chris Hemsworth. Ator até então desconhecido pelo público mundial, demonstrou grande sensibilidade e paixão como o personagem título. Conseguiu ir além dos músculos definidos, o que é um triunfo, já que aparentemente músculos definidos e boas atuações nem sempre se encaixam com sucesso.

Fora esses elementos, Thor é dono de um bom 3D. Vale a pena usar os irritantes óculos para desfrutar dos efeitos especiais que, por sua vez, são assombrosamente vertiginosos. O roteiro (escrito por Don Payne em parceria os mesmos roteiristas de X-Men: First Class, Ashley Edward Miller e Zack Stentz), é afiado, sólido e usa as oportunidades que tem para deixar claro, de forma cômica, como não sabemos lidar com o que não entendemos. Também não demonstra ter pressa para se desenrolar, assim como a história da própria produção do filme. Nada de passos largos e paciência rasa. O que há de épico e milkshakespeariano é uma mera consequência da ideia, não o combustível dela. Well done. Agora o negócio é esperar pelo próximo aperitivo de The Avengers: o filme do Capitão América, cuja estreia no Brasil está programa para 29 de julho.

E não se atreva a deixar a poltrona antes do fim dos créditos finais de Thor. Quem avisa amigo é.


Essa resenha foi publicada no Under Thunder também.

sábado, 7 de maio de 2011

Flecha no alvo

The Hunger Games mostra que há futuro na literatura de jovens adultos depois de Harry Potter


[Post atualizado dia 22/03, às 9h40. Texto completamente reescrito]

(Divulgação/Scholastic Press)

Quando eu acordo, o outro lado da cama está frio. É com esta frase que se inicia o livro The Hunger Games (lançado no Brasil pela Rocco Jovens Leitores como Jogos Vorazes), primeiro volume da trilogia homônima de Suzanne Collins, publicada pela Scholastic Press. Uma mistura de sci-fic, suspense e aventura ambientada em futuro de distopia e destruição.

Onde era a América do Norte, se encontra uma nação chamada Panem, que é dividida em 12 distritos e uma capital que os comanda. Uma vez por ano, um reality show chamado Hunger Games acontece. Cada distrito envia dois participantes sorteados: um menino e uma menina que tenham entre 12 e 18 anos, são obrigados a entrarem na arena onde eles têm que lutar até a morte. O ganhador é o único sobrevivente, que levará uma grande quantidade de dinheiro. A história é narrada por Katnis Everdeen, adolescente de 16 anos que se voluntaria a substituir sua irmã mais nova nesse jogo.

Se hoje não é de todo incomum ter uma garota dessa idade como narradora de um romance, vale dizer que ela definitivamente não é um link entre o público e uma autora que pensa se comunicar com os jovens usando gírias e consequentemente fazendo papel de idiota (caso do tenebroso Formaturas Infernais). Katniss é madura e complexa demais para servir disso. Ela é a personificação dos desdobramentos que um governo totalitário promove. Vive no distrito mais pobre de Panem, desde criança é obrigada a caçar para ter carne na mesa e é praticamente o homem da casa. Sua mãe está numa difusa depressão por causa da morte de seu marido, pai das meninas, e Katniss se vê na obrigação de cuidar dela e de sua irmã mais nova. Com o passar dos anos, a protagonista consolida sua visão imediatista da vida – da sociedade, de seus vizinhos quase miseráveis e o descaso do governo para com seu distrito. A brutalidade ao seu redor e seu dever dentro de casa não dão a ela tempo para ter a idade que tem. Ao ingressar na arena do reality show, não hesita em puxar seu arco e flecha para garantir sua sobrevivência entre seus companheiros de mesma faixa etária, que também se jogarão num turbilhão de tentativas de sobreviver matando uns aos outros. Todos querem sobreviver. Alguns receberam treinamento antes, outros não tiveram dinheiro para isso; mas na arena, todos sujam as mãos com o sangue do outro, apesar de serem desiguais em preparo.

Katniss é uma personagem composta por muitas partes. Tem maturidade para abraçar suas responsabilidades, pois sabe que mais ninguém pode estar no seu lugar. Tem consciência do estado em que vive o Distrito 12. Observa as atitudes das outras pessoas com humanidade, mas ela deve proteger sua família antes de si mesma, então sempre tem conclusões matemáticas sobre seus conviventes. Tudo isso ao mesmo passo em que um posicionamento político é exigido dos personagens e não há tempo para futilidades. Essa complexidade, essa carga dramática, definitivamente são difíceis de encontrar em histórias do gênero young adult, ao qual The Hunger Games pertence. Se antes veio Harry Potter, que não foi tão diferente em termos de complexidade, depois surgiram as sagas de Percy Jackson e Crepúsculo, que definitivamente fazem um sucesso estrondoso (principalmente a última), mas deixam a desejar tanto na criatividade da prosa quanto no conteúdo.


A autora de The Hunger Games, Suzanne Collins, leva sua história num jogo de palavras incisivas e objetivas, fazendo a leitura ser magnética e cada vez mais tensa ou chocante. Seus personagens são tão bem construídos em seus cenários que fica difícil de não ter uma visão exata deles dentro da história. Com mestrado em escrita dramática pela Universidade de Nova York, Collins, de 47 anos, antes trabalhava como roteirista para programas da Nickelodeon. É autora da saga de fantasia The Underland Chronicles, mais três títulos avulsos e da trilogia The Hunger Games. O primeiro livro foi lançado em 2008; Catching Fire, o segundo (lançado no Brasil como Em Chamas), em 2009; o terceiro, Mockingjay (aqui como A Esperança), em 2010. Collins diz ter tido a ideia desta saga enquanto assistia TV. Ao trocar de canais, se deparou com cenas de guerra e de reality shows. Grande fã de mitologia e principalmente do mito de Teseu, Collins misturou esses três elementos para criar sua história. Os componentes aparentam ser bem diferentes um do outro, mas o resultado é coeso e impressionante: uma história não vista até então, contada por uma escritora com uma forte marca autoral.

Evidentemente, o fenômeno de vendas que a saga protagoniza pelo mundo culminou em adaptação cinematográfica. O diretor escolhido para o trabalho foi o cultuado Gary Ross, de Pleasantville e Seabiscuit. O roteiro foi escrito pela própria Suzanne Collins, junto de Ross e Billy Ray (de O Preço de uma Verdade). A ótima atriz Jennifer Lawrence, que bem entende de papéis de garotas duronas (como em Inverno da Alma e X-Men: Primeira Classe), foi escolhida entre várias outras concorrentes para o papel de Katniss Everdeen. O filme já está pronto e estreia na sexta-feira dessa semana, dia 23. Catching Fire nem teve sua pré-produção iniciada, mas sua estreia já foi agendada pela distribuidora Lionsgate para ano que vem. Simon Beaufoy (de Quem Quer Ser um Milionário? e 127 Horas) foi contratado para escrever o roteiro adaptado ao lado de Michael Ardnt (Pequena Miss Sunshine e Toy Story 3). Francis Lawrence (Constantine) é o diretor.

Sobre a adaptação, James Rocchi, jornalista do site Box Office Magazine, disse que se trata do melhor filme americano de ficção científica desde Matrix, e que se os próximos filmes forem feitos seguindo os mesmos moldes do primeiro, estaremos diante da raridade que é uma franquia blockbuster valer o dinheiro do ingresso “pela habilidade, emoção e execução”, não meramente por marketing e efeitos visuais. Já sobre o romance de Suzanne Collins, vale dizer que se trata de um daqueles casos em que a excelência da qualidade supera qualquer fenômeno de vendas ou febre entre leitores. É uma peça única.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Além de 'Crespúsculo'



Catherine Hardwicke é boa diretora, mas é perseguida por um fantasma: Crepúsculo. Antes de ser execrada por esse quase-filme de quase-vampiros, ela tinha boa fama por Aos Treze e Os Reis de Dogtown. Seu terceiro filme, Jesus – A História do Nascimento, ao contrário dos anteriores, passou completamente despercebido, e também foi dilacerado pela crítica. Agora, ela lançou A Garota da Capa Vermelha, que também anda levando arranhões, mas apenas por ser tão difícil de satisfazer a todos, ao mesmo tempo em que é, definitivamente, um filme digno de atenção.

Trata-se de uma versão dark da clássica história da Chapéuzinho Vermelho. Aqui, o roteiro de David Leslie Johnson, baseado numa ideia do produtor Leonardo Di Caprio, se aprofunda no que a história original oferece de intrigante e inconcebível para o entendimento de crianças. Em A Garota da Capa Vermelha, há tensão sexual, atmosfera de mistério, imprevisibilidade e toda cultura folclórica típica de aldeias, já que é numa delas em que a história se desenrola, centenas de anos atrás. Fora a conexão entre do que há de dark no roteiro e na belíssima concepção visual do filme (repare nas árvores com espinhos anormalmente grandes), ele usa como estrutura aquela ideia de que gente não presta. Numa aldeiazinha no meio do nada e cercada de neve e árvores, em que os conhecidos se casam, têm filhos, morrem por ali mesmo, e os filhos seguem o exemplo, os habitantes criam laços de amizade e confiança. “O Lobo” é um lobisomem que está descontrolado e faz com que as pessoas se tranquem em suas cabanas. O que acontece é que há um certo jogo de interesse na morte do Lobo. Ela é conveniente para quem? Como o Lobo está conectado ao passado daquelas pessoas? E, a grande questão: quem é ele? O clima de mistério acontece magistralmente. As respostas enfraquecem os joelhos.

Mas o que faz muita gente torcer o nariz para este filme, é o fato de que Hardwicke dirigiu o primeiro filme da saga Crepúsculo. Por aí, andam dizendo que A Garota da Capa Vermelha é uma versão “crepusculada” sobre lobisomens e a fábula original dos irmãos Grimm (que foi adocicada pelas adaptações para outras mídias). Ledo engano. Ao contrário do que acontece na saga da escritora Stephenie Meyer, ou nos filmes feitos a partir de seus livros, o romance, aqui, neste filme, faz sentido. Ele ajuda a história funcionar e passa longe de ter aquele tom pastel.

E é difícil imaginar que um filme que reúne no elenco atores como Gary Oldman, Julie Christie e Virginia Madsen seja ruim. Não dá para esquecer de Amanda Seyfried, que foi perfeita para o papel da garota branquela que anda por aí de vermelho. Ela é uma atriz competente, que anda protagonizando muitos filmes e não está longe do momento em que vai surpreender a todos com um desempenho estupendo num filme ideal para tal feito. Em A Garota da Capa Vermelha, ver o elenco caminhando pela neve e lançando olhares de desconfiança às pessoas ao redor é impagável. Os segredos escondidos pelos personagens faz com que sangue seja derramado. E enquanto isso, a câmera sempre ágil de Hardwicke vai deslizando pelo cenário fantasmagórico em ângulos holandeses, belos planos da natureza e aquela típica tremedeira de câmera na mão, coisa que a tal diretora nunca dispensa. A trilha sonora, por sua vez, é um dos pontos altos do filme. Deixar tudo isso passar batido por causa de preconceito para com Crepúsculo é um grande desperdício.

Catherine Hardwicke provavelmente será tida, a partir desta ocasião de estreia de A Garota da Capa Vermelha, como uma artista julgada pelos seus deslizes. Futuramente, talvez isso seja arrumado. Mas ela aparenta nem se importar com isso. Entrega seus filmes e ponto. E enquanto isso não acontece, vale a pena deixar os preconceitos cinematográficos de lado e ver o que ela tem para oferecer. As surpresas podem ser bem agradáveis.