sábado, 4 de junho de 2011

Primeira Classe é o trabalho de um excelente filmmaker na direção e de outro excelente filmmaker na produção – e o resultado vai bem além disso

[RESENHA SEM SPOILERS]


X-Men: Primeira Classe é um daqueles filmes que nunca teriam como dar errado. Não com um cineasta visionário na produção e na feitura da história (Bryan Singer) e outro cineasta visionário na direção (Matthew Vaughn).

Fica até difícil de saber por onde começar a falar sobre este filme. É uma grande junção de partes que estruturam um contexto absolutamente ambicioso. A essência é puramente emocional, assim como em todos os outros filmes dirigidos por Matthew Vaughn. A auto-aceitação é retratada aqui como uma versão não expandida de conflitos que definem nossa sociedade como esse caldeirão de confusões dos mais variados tipos. Os jogos de interesses políticos fluem com precisão (o que não deve faltar quando se trata de X-Men em qualquer mídia), e fatos verídicos da história da humanidade são inseridos com bastante audácia na trama mutante. É tudo muito sugestivo e incisivo: exatamente o que a franquia precisava. Desde que Bryan Singer a deixou, depois de dirigir os fabulosos dois primeiros filmes, a conclusão não foi muito bonita. O Confronto Final e Wolverine tiveram produções sofridas e resultados inconsistentes. Nem todo mundo gostou. Agora que Bryan Singer voltou e provavelmente não vai embora de novo, o rumo já está definido.

Depois de aceitar e sabiamente desistir da direção de O Confronto Final (e criticar com razão o resultado), Matthew Vaughn aceitou, recusou, e aceitou novamente a direção de Primeira Classe. Foi uma feliz escolha dos produtores. Dessa vez eles ofereceram ao diretor mais independência e liberdade criativa. Isso se deve ao grande êxito da carreira de Vaughn. O nome desse êxito é Kick-Ass, e só vendo para compreender o que este filme é. De qualquer forma, o tal diretor levou seu estilo para uma produção supervisionada por Bryan Singer, o que fez muita gente erguer as orelhas para prestar atenção no projeto. Depois, junto com as notícias que iam saindo enquanto o filme estava sendo feito, os comentários receosos vieram: a divulgação da história, junto com outros fatores, denunciou uma série de discrepâncias de continuidade com os outros filmes. Os atores não são celebridades. Muitos personagens. Muitos nomes nos créditos de produção. Muitos nomes nos créditos de roteiro (o que causou uma pequena confusão que chegou até o sindicato dos roteiristas dos EUA). Material promocional em excesso e de qualidade duvidosa. Apenas aproximadamente um ano entre o anúncio do filme e sua estreia. E agora que ela chegou e os elogios são no mínimo rasgados, os comentários receosos cessaram, apesar dos comentários ácidos continuarem.

Os autores desses comentários são os fãs que irredutivelmente prezam pela fidelidade total aos quadrinhos. Primeira Classe revelou-se corajoso por funcionar como uma prequela, reboot, e ter um roteiro original. Apesar de haver referências, a trama não foi extraída de nenhum arco de histórias dos quadrinhos lançados. No filme, alguns personagens se encontram num tempo em que, originalmente, não deveriam estar. Outros personagens perderam seu sotaque. Outros são mudos ou praticamente monossilábicos. Mesmo assim, todos eles têm uma persona fiel à das origens, e funcionam muito bem por aqui. A melhor forma de se livrar desses fantasmas do processo de adaptação de livros ou quadrinhos é simplesmente encará-los como não-definitivos. Eles não têm o objetivo de estabelecer qualquer coisa na “mídia de origem”. O caráter experimental da equipe deste filme falou mais alto e um dos resultados mais aparenta ser uma homenagem aos quadrinhos. Primeira Classe trata a franquia com um novo olhar. Isso aconteceu com outros heróis como Superman e Batman. Falando de Batman, Matthew Vaughn disse que Primeira Classe é parecido com Batman Begins, justamente por se tratar de uma nova interpretação, que começa se apresentando, depois revela seus objetivos. Se a continuação de Primeira Classe for tão espetacular quanto a de Batman Begins, as palavras do diretor se concretizarão. É esse o motivo que Primeira Classe tem para não subir mais degraus do que deveria. Eles serão alcançados nas continuações. Consegue ser ótimo seguindo padrões estabelecidos por si mesmo, tem a própria velocidade, assim como foi com o primeiro filme dos X-Men, de 2000. A ideia da junção de prequela e reboot é levada tão a sério, que cenas do primeiro filme foram refeitas.
Jane Goldman (corroteirista) com parte do elenco: Kevin Bacon, Michael Fassbender, James McAvoy, Zoë Kravitz, Jason Flemyng e Álex González.
O filme por si só é uma beleza. As atuações são equilibradas e certeiras. Ótimo casting. São muitos personagens, mas os rostos dos atores são inesquecíveis. A atenção é muito bem dividida e o carisma dos vilões equivale ao dos heróis. January Jones foi perfeita como Emma Frost. Caleb Landry Jones foi amável como Banshee. James McAvoy é um ator que esbanja talento. Mas o negócio aqui é a atuação de Michael Fassbender como Magneto. De uns tempos para cá, Fassbender anda recebendo a atenção que merece. É um ator que tem uma presença forte e abraça o que for necessário para ser convincente. Quem rouba a cena é ele, falando várias línguas e com sede de vingança.
Jane Goldman e Matthew Vaughn.

O roteiro é muito bem amarrado, o que pode ser considerado um triunfo. Geralmente, quando muitos roteiristas trabalham no mesmo projeto, o resultado é disperso e mole. Felizmente, não é o caso de Primeira Classe. A história foi feita por Bryan Singer, adicionando elementos de um roteiro que Sheldon Turner fez para um spin-off de Magneto. Jamie Moss escreveu um primeiro rascunho (e ficou de fora dos créditos, apesar de ter recorrido ao Writers Guild of America, com a ajuda de Singer), que depois foi reescrito pela dupla em ascensão Ashley Edward Miller e Zack Stentz (de Thor) e finalmente passou por uma última revisão com Matthew Vaughn e seu braço direito, a sempre bela e talentosa Jane Goldman (reprisando a parceria de Stardust, Kick-Ass e do ainda inédito The Debt). A impressão é a de que escreveram o filme sem se importarem com competição entre outros de super-heróis. Como se tudo fosse descoberto numa segunda primeira vez.
Esteticamente, é impecável. Os figurinos, os cenários, toda tecnologia futurista. A veia de anos 60 é bem presente. A fotografia, por sua vez, surpreendeu. É bela e eficiente, mas as cores não são tão acentuadas como nos trabalhos anteriores de Vaughn. E falando dele, mas que direção impecável. Dá gosto de ver. Poucos conseguem dirigir cenas de ação monumentais e imprevisíveis e atores em performances tão respeitosas.

X-Men: Primeira Classe tem uma história muito bem contada e um final que deixa vontade de assistir a continuação no dia seguinte. Infelizmente, haverá um intervalo de dois ou três anos até o próximo, como é típico dos filmes dos X-Men. Mas se a mesma equipe estiver presente para fazer outro filme impecável, a espera valerá. Na próxima vez, em decorrência de seu acerto, provavelmente o diretor deverá ter mais espaço ainda para trabalhar, e menos mãos cuidarão da produção e do roteiro, de forma que sua marca será mais visível ainda.

Matthew Vaughn é um visionário. E tenho dito.


Veja esta resenha lá no Under Thunder também!

terça-feira, 24 de maio de 2011

X-Men: First Class - discussões - parte 1

Estamos a nove dias da estreia de First Class. Enquanto não sai, os elogios feitos pelo sortudos críticos que já o viram em exibições especiais, continuam a encher a bola do filme. As fotos e vídeos continuam saindo. Hoje, o Omelete divulgou um making-of de 20min., dividido em quatro vídeos.

E há algum tempo, o The Hollywood Reporter, por sua vez, publicou um artigo sobre os créditos do roteiro de First Class. Parece que houve uma polêmica. Jamie Moss fez a primeira versão do roteiro, depois de estabelecida a história desenvolvida por Sheldon Turner e Bryan Singer. Acontece que, enquanto Sheldon e Bryan têm os créditos sobre a trama, "Ashley Edward Miller & Zack Stentz", e "Jane Goldman & Matthew Vaughn", nesta ordem e desta forma, receberam os créditos do roteiro. Jamie Moss ficou de fora e foi atrás de reverter a situação através do Writers Guild of America, o sindicato de roteiristas dos EUA. Jamie teve o apoio de Bryan, mas mesmo assim não deu certo, e o WGA decidiu deixar os créditos do jeito está acima.

Eu acho uma injustiça. Se o primeiro rascunho é de Jamie, ele definiu vários elementos que serviram de base para os outros rascunhos. Por qual motivo não ter o nome dele nos créditos?

Making-of:









[ATUALIZAÇÃO - 28/05/2011, às 17h03]

Agora temos também o clipe oficial de Love Love, do Take That, para a divulgação do filme:




E tem mais:

O nosso belo diretor Matthew Vaughn deu uma entrevista um tanto quanto reveladora ao Screen Geek sobre First Class. Nela, Matthew diz que o mutante brasileiro Mancha Solar foi retirado do roteiro, também diz que ele e Jane Goldman praticamente reescreveram o roteiro, não fizeram apenas uma revisão, e usa um tom nada amigável sobre o how make de Hollywood: fala como o que ele é, um diretor visionário. Vale muito ler a entrevista.

O tempo de duração, por sua vez, foi mudado para 131min. Provavelmente é a versão do diretor que contém os nove minutos anunciados anteriormente.

E não é que a estreia está quase aí? Seis dias e contando! Enquanto o filme não sai, vale a pena fuçar o site oficial, que está sensacional.
Link

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Thor é um triunfo em proporções, digamos, "trovejantes"


Thor é um êxito que entrou na história das adaptações cinematográficas de quadrinhos da Marvel. Também é, provavelmente, seu filme mais ambicioso e de caráter mais experimental. Em termos de ambição, aparentemente perderá para um que será lançado ano que vem: The Avengers, que reunirá uma grande parcela de personagens apresentados em todos os filmes da Marvel distribuídos pela Paramount.

E o motivo pelo qual Thor pode ser classificado como um filme ambicioso e experimental é o fato de que, até então, os filmes baseados em HQs da Marvel usam como estrutura de roteiro a ciência e a tecnologia. Mesmo expandindo tais elementos para níveis fantasiosos, eles ainda têm um pé na nossa realidade, o que acaba nos aproximando das histórias. No caso de Thor, mesmo havendo ciência e tecnologia para responder por alguns acontecimentos, quase todos os segundos de filme se agarram à existência de seus personagens em outra dimensão: o reino de Asgard. Não é fácil para qualquer um engolir algo assim. Essa história em quadrinhos ou em animações é uma coisa, uma vez que nessas mídias, a liberdade de criação é bem menos limitada. Mas num filme, haha, a coisa é bem outra: haja criatividade e coragem para adaptar. Deve ter sido um processo quase cirúrgico. Antes da estreia, as notícias sobre Thor pareciam ser meio estabanadas: Kenneth Branagh na direção? Chris Hemsworth, um desconhecido, como protagonista? Isso sem mencionar o inferno que foi fazer uma adaptação cinematográfica de Thor. Há quase vinte anos esse projeto existe, passando de estúdio para estúdio, de diretor para diretor e por aí vai. E mesmo que aparentando estar na corda bamba, o projeto foi concretizado e a resposta está aí: conseguiram fazer uma beleza de filme. Mesmo sendo fantasioso em níveis (perdão pelo trocadilho) trovejantes, é magnético, convincente e tem um coração que bate com entusiasmo.

Stan Lee (cuja ponta é mais uma vez sensacional) sempre disse que Thor deveria ter ressonâncias shakespearianas. Então, a contratação de Kenneth Branagh para dirigir fez sentido. Sua experiência em Shakespeare no cinema é sólida. Muita gente andou criticando os ângulos holandeses, mas eles são bem encaixados, não exagerados. Até contribuem para firmar a história como algo grandioso. As atuações são bem eficientes, e Tom Hiddleston (Loki) e Natalie Portman (Jane Foster) são os que mais chamam atenção, em performances brilhantes. Hiddleston é um charme e este filme deve funcionar para ele como uma abertura de portas. Natalie agracia seus fãs com sua exigente flexibilidade e curiosidade. Uma atriz que fez filmes underground como Cisne Negro, retorna a um papel coadjuvante marcante num blockbuster. O mesmo sobre Stellan Skarsgård (Erik Selvig), um ator de filmes alternativos (e brutais, como Dogville e Ondas do Destino, de Lars von Trier), mostra a cara neste projeto tão diferente de outros que têm seu nome nos créditos. Mas a grande surpresa é Chris Hemsworth. Ator até então desconhecido pelo público mundial, demonstrou grande sensibilidade e paixão como o personagem título. Conseguiu ir além dos músculos definidos, o que é um triunfo, já que aparentemente músculos definidos e boas atuações nem sempre se encaixam com sucesso.

Fora esses elementos, Thor é dono de um bom 3D. Vale a pena usar os irritantes óculos para desfrutar dos efeitos especiais que, por sua vez, são assombrosamente vertiginosos. O roteiro (escrito por Don Payne em parceria os mesmos roteiristas de X-Men: First Class, Ashley Edward Miller e Zack Stentz), é afiado, sólido e usa as oportunidades que tem para deixar claro, de forma cômica, como não sabemos lidar com o que não entendemos. Também não demonstra ter pressa para se desenrolar, assim como a história da própria produção do filme. Nada de passos largos e paciência rasa. O que há de épico e milkshakespeariano é uma mera consequência da ideia, não o combustível dela. Well done. Agora o negócio é esperar pelo próximo aperitivo de The Avengers: o filme do Capitão América, cuja estreia no Brasil está programa para 29 de julho.

E não se atreva a deixar a poltrona antes do fim dos créditos finais de Thor. Quem avisa amigo é.


Essa resenha foi publicada no Under Thunder também.