quinta-feira, 21 de junho de 2012

Após hiato de sete anos, Fiona Apple retorna tão idiossincrática e febril quanto antes


(Divulgação/Epic)

Fiona Apple demorou, mas voltou. Seu último álbum de inéditas foi lançado em 2005 – Extraordinary Machine foi engavetado pela própria gravadora antes de chegar às prateleiras reais e virtuais mais de três anos após sua gravação. Aparentemente porque a Epic Records achou o conteúdo do disco muito anticomercial. Quando saiu (por causa da insistente campanha feita por fãs, “Free Fiona”), apesar da aclamação, ficou evidente que demoraria até vir outro álbum. Mas agora, sete anos depois, ao lado de nomes que também não gravavam material inédito há algum tempo (como Garbage e Patti Smith), a cantora, compositora e pianista retornou da melhor forma que podia: tão boa quanto antes. Produzido por ela própria e Charley “Seedy” Drayton, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do (2012, Epic Records), talvez seja o álbum de sonoridade mais crua e idiossincrática que Fiona já lançou. Como compositora, ela continua demonstrando amadurecimento e criatividade. Como pianista, cada vez mais marcante e imprevisível. Como cantora, cada vez mais febril e intensa (vide as faixas "Every Single Night", "Anything We Want" e "Hot Knife"). Tudo isso faz de Fiona Apple um dos nomes mais interessantes que o cenário da música alternativa nos apresentou lá na década de 1990, quando a moça nem 20 anos de idade tinha. E como outros artistas de obras coesas, talvez ela tenda a lançar seus trabalhos entre longos intervalos. Mas, por favor, que não sejam tão longos quanto o último. Fiona Apple é do tipo que faz falta.

domingo, 15 de abril de 2012

Fora dos eixos

 (Divulgação)

Quando seu futuro é promissor, por qual razão você o temeria? Quando seu futuro se transforma no dia de hoje e ele não é bem do jeito que estava prometido, você faz o quê? O filme Jovens Adultos (Young Adult, 2011) trabalha com essa premissa – tudo fora do lugar, nada como foi prometido e você não sabe o que fazer.

Charlize Theron, em mais uma estupenda interpretação, é Mavis Gary, uma ghost writer de ficção para adolescentes que vive o parágrafo acima. Deprimida, alcoólatra e boca-suja, decide retornar à cidade onde vivia quando jovem com o intuito de reatar um namoro do colegial. O nome do alvo é Buddy Slade (Patrick Wilson), que está casado e tem um bebê recém-nascido: dois itens que são apenas meros detalhes para a anti-heroína maquiavélica e fora dos eixos.

O que acontece com Mavis é bem complicado. Ela está fortemente presa ao passado (observe a metáfora que é o carro dela) e decepcionada com seu presente, que é um futuro não planejado. Insatisfeita com a vida na cidade de origem, Mavis foi atrás de seus sonhos na cidade grande, ao contrário de seus colegas e familiares. Ela fez faculdade e tornou-se bem sucedida no trabalho, o que geralmente acontece com quem segue esse caminho. Mas no dia de hoje, só há o vazio promovido pela sensação de que o que ela fez não foi o suficiente para sentir-se satisfeita.

Ao voltar a Mercury, em Minnesota, Mavis observa que tudo por lá ficou do jeito que ela deixou. As pessoas não mudaram, mas ao contrário dela, está todo mundo aparentemente bem (sendo exceção Matt Freehauf, personagem de Patton Oswalt). O filme trabalha com essas reflexões do que é felicidade para cada pessoa e as decisões que elas tomam para construírem suas vidas – é definitivamente o roteiro mais espinhoso, imprevisível e profundo de Diablo Cody, bem mais parecido com os de seu extinto seriado United States of Tara.

 Charlize Theron e Jason Reitman no set de filmagens (Divulgação)

Jovens Adultos é o mais novo filhote da amizade da roteirista e do diretor Jason Reitman. Anteriormente, ambos levaram para os cinemas o agridoce Juno (2007) e a comédia de horror Garota Infernal (2009), este apenas produzido por Reitman. Mas é neste terceiro filme que ambos estabelecem uma sintonia e ponto final. A direção de Reitman é certeira e se basta no que precisa ser posto na tela, um daqueles casos em que a lente da câmera se torna de fato os olhos do espectador. O roteiro de Cody esbanja personalidade e é saudosista até não poder mais. O contexto musical que a autora geralmente insere em suas tramas é quase uma personagem, lembrando bastante escritores como Elizabeth Wurtzel e Nick Hornby. Os atores estão em cena usando camisetas de bandas como The Breeders e Pixies.

Além do tímido desempenho na bilheteria, o que este filme tem de notável não é apenas seu contexto cheio de pequenas partes e o tão comentado terceiro ato, que convenceu Jason Reitman a assumir a direção, mas a simplicidade e honestidade para colocar à mesa assuntos tão delicados e abrangentes. Peter Travers, crítico da Rolling Stone, bem disse: “justo aviso: as risadas em Jovens Adultos deixam feridas”. A marcante atuação de Charlize Theron, o afiado roteiro e a trilha sonora repleta de clássicos do rock dos anos 1990, também ajudam o filme no que parece ser um de seus objetivos: partir corações, assim como a vida real faz, apesar de todos os sonhos.


(Atualização: em 20/4/2015, às 12h17. O vídeo foi trocado por outro com legendas, e erros de gramática foram corrigidos.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eficiência e sutileza fazem de 'Histórias Cruzadas' um bom 'feel good movie'

(Foto: divulgação/Touchstone Pictures)

Em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, nós somos apresentados a uma história num interessante período e local: o sul dos Estados Unidos da América (mais especificamente o estado do Mississippi) na década de 1960. Sabe-se que essa foi a época em que Martin Luther King travava batalhas pela igualdade dos negros na sociedade, ao mesmo tempo em que o preconceito no sul dos EUA era ainda mais espinhoso – essa região do país é conhecida por seu histórico de intolerância diante de grupos minoritários. É esse o quadro encontrado pela jornalista recém-formada Skeeter (interpretada por Emma Stone) ao retornar para a cidadezinha de Jackson.

Se o período é borbulhante em termos de acontecimentos históricos, Histórias Cruzadas decide abordar apenas a faceta doméstica e feminina do relacionamento da sociedade com as pessoas “de cor”, como são chamadas algumas vezes no decorrer do filme. Empregadas negras que trabalham muito e ganham pouco educando (e se afeiçoando aos) filhos de seus patrões brancos, estão presas à corrente do preconceito: suas mães trabalhavam como empregadas para brancos, e por falta de oportunidades, suas filhas fizeram o mesmo. Lá, elas encontram sempre a mesma situação, que é receber um tratamento autoritário e por vezes desrespeitoso de seus patrões, ao mesmo passo em que educam seus filhos, que se tornarão adultos como seus pais. A recém-abolida escravidão ainda projeta uma sombra de atraso no cotidiano dessas pessoas.

A aspirante a escritora Skeeter tem educação acadêmica e os horizontes mais expandidos do que os de seus vizinhos, e reconhece como são desnecessários os preconceitos e as medidas tomadas pelos patrões, como a de construir banheiros apenas para seus empregados. A própria personagem também foi criada por uma negra, enquanto sua mãe mais se preocupava em ter status entre suas amigas. Skeeter arranja um emprego no jornal local em uma coluna de dicas domésticas. Para isso, conta com a ajuda de empregadas negras. Quando suas amigas torcem o nariz para sua iniciativa, ela decide escrever um livro repleto de relatos das empregadas em seus anos de trabalho nas casas de brancos.

Emma Stone tem uma performance madura em Histórias Cruzadas. (Foto: Touchstone Pictures)

Começando por Aibileen (Viola Davis) e depois partindo para a brilhante e rebelde Minny (Octavia Spencer), os relatos vão sendo recolhidos e escritos. Enquanto isso, Skeeter bate de frente com quem destrata as empregadas. E não demora muito para esse grande grupo que elas formam começar a vibrar com a audaciosa empreitada de Skeeter; e embora o livro seja um segredo, os brancos se mostram receosos diante do ar de mudança que invade suas vidas.

O longa foi baseado no romance A Resposta, de Kathryn Sttocket (amiga do diretor Tate Taylor), e, acima de tudo, vem recebido elogios pelas convincentes e notáveis interpretações de seu grande elenco feminino. Pode ser considerado um dos primeiros filmes “sérios” de Emma Stone, que consegue subir mais um degrau em sua carreira. Também há as marcantes atuações das veteranas Viola Davis, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Bryce Dallas Howard e a recém-revelação Jessica Chastain brilham com graça ao lado das outras coadjuvantes. A parte técnica do filme também não deixa a desejar. Sua fotografia, seus planos e seu figurino sustentam bem a vibe de feel good movie.

Mesmo com sua boa estrutura, bonita decoração e sua contagiante empolgação, este filme anda também levantando debates entre seus espectadores e críticos sobre o próprio retrato feito por ele. Ora bolas, os únicos problemas que os negros tinham no interior dos EUA durante os anos 60 eram apenas ter que usar um banheiro separado para eles nas casas de seus patrões? E essa trama pode ter uma inconsistência em seu espírito: quer ser antirracismo ao mesmo passo em que a possibilidade de mudança na vida dos negros é posta pelos brancos de cabeça mais aberta às diferenças? Apesar de tão bem feito e discutível (como o período em que a história acontece), Histórias Cruzadas não se deixa abalar pelos seus desdobramentos não-intencionais, e isso fica bem claro em seu clima positivista, que com traços de drama e comédia se estabelece como um filme bem definido que não tem pretensão de causar barulho.

Uma de suas grandes sacadas é optar pela boa e velha situação acontecida outrora mas não muito diferente do que acontece hoje em dia. Difícil de questionar o papel de um filme como esse em uma sociedade que ainda insiste em ter seus setores racistas e dá mais valor a quem é rico e tem status do que aos trabalhadores que a sustenta. Ainda mais quando ele tem em sua manga a carta da simpatia e da leve reflexão.