sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cia. Vera Cruz voltará a produzir filmes

Além de oferecer o Centro de Formação Audiovisual, projeto da prefeitura visa devolver a São Bernardo do Campo status de polo cinematográfico

O complexo fica localizado na Av. Lucas Nogueira, Jardim do Mar, região central de São Bernardo. (Foto: Folha de S.Paulo)

 O estúdio Vera Cruz, atualmente usado para feiras e eventos, está passando por um projeto de revitalização. Fundada em 1949 por Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, a Cia. Cinematográfica Vera Cruz produziu e coproduziu mais de quarenta títulos nas décadas de 50 e 60. Dentre eles, Sinhá Moça, de Tom Payne e Oswaldo Sampaio, e O Cangaceiro, de Lima Barreto – primeiro sucesso internacional e um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, ganhador do prêmio de melhor filme de aventura no Festival de Cannes de 1953. O estúdio faliu em 1954, quando Zampari passou suas ações e o patrimônio do estúdio ao Banco do Estado de São Paulo para pagar uma dívida de CR$ 164 milhões. Consequência da falta de um sistema de distribuição próprio da produtora, que só não foi liquidada pelo banco porque o cineasta Walter Hugo Khouri, junto de seu irmão, comprou aproximadamente 90% das ações. Apesar de não ter fechado, o Vera Cruz foi produzindo cada vez menos, conforme sua administração passava de mão em mão. Antes do atual revigoramento, a companhia já havia sido alvo de empreitadas semelhantes, mas fracassadas, como o Projeto Nova Vera Cruz, nos anos 90, parceria da Secretaria de Estado da Cultura, da Fundação Padre Anchieta e da Prefeitura de São Bernardo.

Em entrevista ao Garoto Desocupado, a prefeitura, através da Secretaria de Cultura contou sobre os planos do “Projeto de Recuperação dos Estúdios”. Confira:

O Vera Cruz vai virar centro de oficinas culturais?

Não será especificamente um centro de oficinas culturais, mas também proporcionará que aconteçam as oficinas dentro de um projeto pedagógico relacionado ao audiovisual, planejado e executado pelo Centro de Formação Audiovisual, um dos programas do Projeto de Recuperação dos Estúdios, que inicia suas atividades ainda este ano, de forma provisória, no Cenforpe.

Havia planos de revitalizar o centro para ele voltar a ser um estúdio antes de vir a ideia de transformá-lo em centro cultural?
O Vera Cruz foi objeto de muitas propostas no passado, mas nenhuma delas concretizada. Somente em 2009, com o início da atual administração municipal, o complexo ganhou um projeto completo de recuperação e revitalização dos estúdios, visando não somente o retorno das gravações de filmes, mas também a criação de uma cadeia de ações formativas, produtivas e de fomento à indústria audiovisual como um todo, transformando São Bernardo do Campo numa cidade referência no setor.

Quando o centro cultural será inaugurado?
Não há data prevista para a entrega total de todos os programas, mas o Centro de Formação Audiovisual, primeira etapa prevista, deverá ser entregue ainda este ano.

De quem foi a ideia?
O projeto de revitalização foi elaborado pela equipe de governo do município, no ano de 2009, em cumprimento ao plano de governo apresentado para a população.

Qual é o objetivo desse novo centro cultural? Está relacionado ao passado do Vera Cruz como polo de produção cinematográfica?
O Objetivo é transformar o espaço num centro de referência irradiador de cultura audiovisual, proporcionando os meios necessários para a estruturação de uma cadeia econômica ligada ao cinema e demais linguagens correlatas, e promover a inserção da cidade no mapa da produção nacional, estimulando e oportunizando aos munícipes a participação nesse processo criativo e mercadológico.

Quais serão os cursos oferecidos?
Inicialmente, o Centro de Formação Audiovisual oferecerá os cursos de Cine/TV e Cinema de Animação, com duração de três semestres, cujo período de inscrições para interessados será anunciado em breve.

O que as pessoas da cidade que são interessadas por cinema podem esperar desse projeto quando ele estiver concretizado?
Podem esperar por uma série de oportunidades na linguagem audiovisual, onde tanto a arte quanto a técnica envolvidas na produção de conteúdos serão contempladas, criando na cidade um grande movimento de formação e realização cinematográfica.

Confira um trecho de O Cangaceiro:


Confira um trecho de Sinhá Moça, ganhador de menções honrosas no Festival de Veneza de 1953 e no Festival de Berlim de 1954:


---

Agradecimentos: à minha professora de linguagem de impresso, Margarete Vieira Pedro, por ter me passado a pauta, e à Prefeitura de São Bernardo do Campo e às secretarias de Cultura e Comunicação, por terem topado em participar da entrevista publicada neste blog, ou seja, mídia espontânea, nada de renome. Obrigado de verdade!

domingo, 15 de julho de 2012

Crescer para ser super-herói

Foto: divulgação/Sony Pictures

Um adolescente geek é picado por uma aranha radioativa e ganha superpoderes de características aracnídeas. Você provavelmente já conhece essa história. Se não a leu nos quadrinhos da Marvel ou não a viu nos desenhos animados, deve ter dado uma conferida nela no primeiro filme da trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi entre 2002 e 2007. O diretor não fez feio em seu trabalho. Soube construir filmes de forte personalidade que estão na memória de quem estava em fase de crescimento (e quiçá de adultos felizes) na década anterior. E por uma questão de manter os direitos de adaptação em dia, a Sony Pictures decidiu fazer O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), reboot dirigido por Marc Webb e primeira peça de uma nova trilogia.

Obviamente existem várias semelhanças entre este filme e o de 2002. Afinal de contas, toda a trama gira em torno apenas de Peter Parker/Homem-Aranha. Mas o novo filme esbanja frescor em seu formato, na abordagem do protagonista e do cenário em que ele vive. Se no primeiro filme de Sam Raimi já víamos Peter Parker vivendo a brutalidade de uma cidade grande como Nova York, os acontecimentos igualmente brutais que a vida pode reservar para pessoas comuns e o que um herói representa para uma sociedade problemática, no filme de Webb, o maior foco é Peter como um adolescente. Alguém que antes de ser super-herói, deve ser maduro para assumir compromissos que fazem diferença na vida de quem está ao seu redor. Aqui, o viés dessa premissa é mais sério que o de Raimi, e isso se reflete até na fotografia do filme, que é mais escura. Vários acontecimentos se desenrolam à noite, não há muito espaço para músicas animadas e o clima melancólico é praticamente o âmago da trama. Como em seu brilhante filme anterior, a comédia romântica (500) Dias com Ela, Webb dá maior foco aos relacionamentos e questionamentos pessoais de seus personagens do que na ação externa.

Desta vez, após achar uma maleta de seu pai no porão da casa dos tios, Peter Parker quer saber mais sobre a morte de seus pais e as misteriosas circunstâncias em que ela aconteceu. Em uma tocante cena, ele é deixado ainda criança pelo casal com seus tios-avôs Ben e May (Martin Sheen e Sally Field, ótimos em seus papéis). Seu caminho cruza com o do Dr. Curt Connors (Rhys Ifans). Ele e o pai de Peter foram amigos no passado e há relações entre as pesquisas do doutor e o sumiço dos Parker. Connors é um cientista que tem apenas o braço esquerdo e tenta reverter sua situação ao combinar DNA humano e animal. O objetivo dele é emocional também. Ele liga necessidades especiais a vazios internos que pessoas podem ter. O DNA de um réptil é usado para fazer o soro a partir de uma equação de Peter. O doutor se usa como cobaia e há um efeito colateral. Pronto: ele se transforma no grotesco e ameaçador Lagarto e o Homem-Aranha se sente na responsabilidade de pará-lo.

 A quarta visita do Cabeça-de-Teia às telonas tem um 3D desncessário, mas não se preocupe, pois o roteiro é uma graça. Na foto: Andrew Garfield e Emma Stone em cena do filme. (Divulgação/Sony Pictures)

Aparentemente, O Espetacular Homem-Aranha foi buscar referências em filmes como Batman Begins e X-Men: Primeira Classe. Mas ao contrário deles, apresenta-se como dono de seu nariz apenas quando o terceiro ato chega. E aliás, que terceiro ato. Observa-se nele mais as mãos do roteirista veterano Alvin Sargent (da primeira trilogia e do espetacular Julia) do que as de seus colegas Steve Kloves (Harry Potter) e James Vanderbilt (Zodíaco). Andrew Garfield foi o escolhido para interpretar o herói dessa vez. Ainda desconhecido, mas elogiado por suas performances realmente notáveis em A Rede Social e Não me Abandone Jamais, ele deita e rola na pele de Peter Parker. Reconheceu que pelo menos neste filme, sua função estava mais para ser competente do que excepcionalmente marcante. A esperta e bela Gwen Stacy é interpretada com eficiência por Emma Stone, espantosamente parecida com a personagem dos quadrinhos clássicos da Marvel.

Há quem diga que essa quarta aventura do Aranha nos cinemas é desnecessária. Mas os observadores mais atentos perceberão que, na realidade, Marc Webb apenas preparou terreno para os próximos dois filmes (motivo pelo qual comparei este primeiro a Batman Begins e o mais recente dos X-Men). Fica claro que O Espetacular Homem-Aranha poderia ter subido mais alguns degraus, mas o diretor opta por não fazê-lo porque sabe que dispõe de tempo para surpreender e fisgar de vez sua plateia. Ele já provou que visão não lhe falta – só precisará encarar a face de um público imediatista e que adora se debruçar em expectativas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Após hiato de sete anos, Fiona Apple retorna tão idiossincrática e febril quanto antes


(Divulgação/Epic)

Fiona Apple demorou, mas voltou. Seu último álbum de inéditas foi lançado em 2005 – Extraordinary Machine foi engavetado pela própria gravadora antes de chegar às prateleiras reais e virtuais mais de três anos após sua gravação. Aparentemente porque a Epic Records achou o conteúdo do disco muito anticomercial. Quando saiu (por causa da insistente campanha feita por fãs, “Free Fiona”), apesar da aclamação, ficou evidente que demoraria até vir outro álbum. Mas agora, sete anos depois, ao lado de nomes que também não gravavam material inédito há algum tempo (como Garbage e Patti Smith), a cantora, compositora e pianista retornou da melhor forma que podia: tão boa quanto antes. Produzido por ela própria e Charley “Seedy” Drayton, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do (2012, Epic Records), talvez seja o álbum de sonoridade mais crua e idiossincrática que Fiona já lançou. Como compositora, ela continua demonstrando amadurecimento e criatividade. Como pianista, cada vez mais marcante e imprevisível. Como cantora, cada vez mais febril e intensa (vide as faixas "Every Single Night", "Anything We Want" e "Hot Knife"). Tudo isso faz de Fiona Apple um dos nomes mais interessantes que o cenário da música alternativa nos apresentou lá na década de 1990, quando a moça nem 20 anos de idade tinha. E como outros artistas de obras coesas, talvez ela tenda a lançar seus trabalhos entre longos intervalos. Mas, por favor, que não sejam tão longos quanto o último. Fiona Apple é do tipo que faz falta.