quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Girls just wanna have fun

Jemima Kirke, Lena Dunham, Zosia Mamet e Allison Williams vivem as garotas que querem se conhecer a si mesmas (Foto: divulgação/HBO)

Se você está sem grana e vai passar as férias de braços cruzados enquanto insetos gigantes de verão invadem sua casa pela janela, faça isso assistindo a esse seriado da HBO chamado Girls.

Vou lhe dar cinco razões para assisti-lo.

Razão #1: Não é o melhor seriado do mundo atualmente ou o melhor seriado já feito, mas é genuíno em termos de identidade e sentimentos. Digno de atenção. Os personagens do seriado e seus dilemas são dolorosamente reais. Há bastante humor também. A primeira temporada termina de forma inesperada e as atuações são um de seus pontos altos.

Razão #2: Conheça Lena Dunham. Essa moça, formada em escrita criativa pela Oberlin College (em Ohio, Estados Unidos), é carne fresca no cinema (que, como você já deve ter notado, anda passando por uma crise de criatividade daquelas) e na TV das terras do Tio Sam. Em Girls, ela atua, escreve, dirige e produz. Antes, ela fez o elogiado filme Mobília Mínima, que lhe rendeu a oportunidade de fazer este seriado autobiográfico, que foi indicado a quatro Emmys e dois Globos de Ouro até agora. O New York Post chamou Dunham de “o novo Woody Allen”. Isso pode ser ofensivo para os grandes fãs dele (eu!), mas não é que a moça é realmente boa no que faz?

Razão #3: Trilha sonora. Parece ser fútil sugerir um seriado apenas pelas músicas que tocam nele, mas é difícil deixar isso de lado quando se tem Siouxsie and the Banshees, Fleet Foxes e The Echo-Friendly tocando ao fundo.

Razão #4: Não é por causa do título que homens devem se sentir repelidos pela série. Muito pelo contrário. Os homens têm espaço aqui como fortes coadjuvantes e não enfrentam situações muito distantes das vividas pelas quatro protagonistas. Eles basicamente são a outra metade dessas situações e passam longe de serem tratados como lixo machista.

Razão #5: A segunda temporada sai em janeiro de 2013 e promete. Como disse acima, a primeira temporada segue um rumo inesperado (assim como cada capítulo em particular) e fica no ar a sensação de que a segunda poderá ser bem mais quente em termos de conflitos e momentos marcantes. Aliás, a primeira tem apenas dez capítulos de aproximadamente 30 minutos. Você nem vai precisar ficar cozinhando no seu sofá durante as férias para arranjar um tempo e assistir Girls.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A questão é que...

"Suck the shit out of my ass, you fucker!"

(Foto: divulgação)

Recentemente, assisti a um dos melhores filmes que poderia ver neste ano. E possivelmente, uma das melhores comédias dramáticas que já vi. Falo de Ruth em Questão (Citizen Ruth, 1996) a estreia de Alexander Payne como diretor e roteirista (este cargo, ao lado de Jim Taylor). Curiosidade: é o único roteiro original filmado pelo diretor.

Neste longa um tanto desconhecido e negligenciado, a excelente Laura Dern interpreta Ruth Stoops, uma jovem indigente, usuária de drogas e não muito carismática (vide uma fala dela na linha-fina deste artigo) que se descobre grávida. Sem querer, ela para bem em cima de um dos maiores braços-de-ferro da humanidade: o debate sobre aborto. A moça é disputada tanto por um grupo conservador e religioso que quer lhe desencorajar em sua ideia de abortar, quanto por um grupo de ideias opostas. Cada um bem radical em sua ideologia.

Lendo comentários por aí a respeito deste filme, fiquei espantado com a quantidade de pessoas que o viram como um libelo especialmente sobre aborto. Quem conhece mais a fundo o trabalho de Alexander Payne talvez discorde assim como eu.

Ruth (Laura Dern, na foto) não é nenhuma "wonder girl", é apenas um ser humano (Foto: divulgação)

Apesar de hoje dirigir filmes mais melancólicos como Sideways (2004) e Os Descendentes (2011), os primeiros trabalhos de Payne são terrivelmente atrevidos e imprevisíveis, caso de Ruth em Questão e Eleição (1999). O diretor entra em questões mais sombrias e delicadas através de uma primeira proposta visível. Em Ruth, o grande lance não é dizer se o aborto é correto ou não. O que vejo neste filme é uma sátira – e das mais ásperas – sobre brigas que compramos para provarmos que temos razão, provocarmos barulho por situações ou pessoas que dificilmente mudam.

A eterna competição entre pessoas, como a faiscante de Reese Witherspoon e Matthew Broderick em Eleição, é quase a Disneylândia para Alexander Payne. Dono de um estilo delicioso, ele me faz rir a melhor risada possível. A descompromissada. Afinal de contas, a briga não vai acabar mesmo.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cia. Vera Cruz voltará a produzir filmes

Além de oferecer o Centro de Formação Audiovisual, projeto da prefeitura visa devolver a São Bernardo do Campo status de polo cinematográfico

O complexo fica localizado na Av. Lucas Nogueira, Jardim do Mar, região central de São Bernardo. (Foto: Folha de S.Paulo)

 O estúdio Vera Cruz, atualmente usado para feiras e eventos, está passando por um projeto de revitalização. Fundada em 1949 por Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, a Cia. Cinematográfica Vera Cruz produziu e coproduziu mais de quarenta títulos nas décadas de 50 e 60. Dentre eles, Sinhá Moça, de Tom Payne e Oswaldo Sampaio, e O Cangaceiro, de Lima Barreto – primeiro sucesso internacional e um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, ganhador do prêmio de melhor filme de aventura no Festival de Cannes de 1953. O estúdio faliu em 1954, quando Zampari passou suas ações e o patrimônio do estúdio ao Banco do Estado de São Paulo para pagar uma dívida de CR$ 164 milhões. Consequência da falta de um sistema de distribuição próprio da produtora, que só não foi liquidada pelo banco porque o cineasta Walter Hugo Khouri, junto de seu irmão, comprou aproximadamente 90% das ações. Apesar de não ter fechado, o Vera Cruz foi produzindo cada vez menos, conforme sua administração passava de mão em mão. Antes do atual revigoramento, a companhia já havia sido alvo de empreitadas semelhantes, mas fracassadas, como o Projeto Nova Vera Cruz, nos anos 90, parceria da Secretaria de Estado da Cultura, da Fundação Padre Anchieta e da Prefeitura de São Bernardo.

Em entrevista ao Garoto Desocupado, a prefeitura, através da Secretaria de Cultura contou sobre os planos do “Projeto de Recuperação dos Estúdios”. Confira:

O Vera Cruz vai virar centro de oficinas culturais?

Não será especificamente um centro de oficinas culturais, mas também proporcionará que aconteçam as oficinas dentro de um projeto pedagógico relacionado ao audiovisual, planejado e executado pelo Centro de Formação Audiovisual, um dos programas do Projeto de Recuperação dos Estúdios, que inicia suas atividades ainda este ano, de forma provisória, no Cenforpe.

Havia planos de revitalizar o centro para ele voltar a ser um estúdio antes de vir a ideia de transformá-lo em centro cultural?
O Vera Cruz foi objeto de muitas propostas no passado, mas nenhuma delas concretizada. Somente em 2009, com o início da atual administração municipal, o complexo ganhou um projeto completo de recuperação e revitalização dos estúdios, visando não somente o retorno das gravações de filmes, mas também a criação de uma cadeia de ações formativas, produtivas e de fomento à indústria audiovisual como um todo, transformando São Bernardo do Campo numa cidade referência no setor.

Quando o centro cultural será inaugurado?
Não há data prevista para a entrega total de todos os programas, mas o Centro de Formação Audiovisual, primeira etapa prevista, deverá ser entregue ainda este ano.

De quem foi a ideia?
O projeto de revitalização foi elaborado pela equipe de governo do município, no ano de 2009, em cumprimento ao plano de governo apresentado para a população.

Qual é o objetivo desse novo centro cultural? Está relacionado ao passado do Vera Cruz como polo de produção cinematográfica?
O Objetivo é transformar o espaço num centro de referência irradiador de cultura audiovisual, proporcionando os meios necessários para a estruturação de uma cadeia econômica ligada ao cinema e demais linguagens correlatas, e promover a inserção da cidade no mapa da produção nacional, estimulando e oportunizando aos munícipes a participação nesse processo criativo e mercadológico.

Quais serão os cursos oferecidos?
Inicialmente, o Centro de Formação Audiovisual oferecerá os cursos de Cine/TV e Cinema de Animação, com duração de três semestres, cujo período de inscrições para interessados será anunciado em breve.

O que as pessoas da cidade que são interessadas por cinema podem esperar desse projeto quando ele estiver concretizado?
Podem esperar por uma série de oportunidades na linguagem audiovisual, onde tanto a arte quanto a técnica envolvidas na produção de conteúdos serão contempladas, criando na cidade um grande movimento de formação e realização cinematográfica.

Confira um trecho de O Cangaceiro:


Confira um trecho de Sinhá Moça, ganhador de menções honrosas no Festival de Veneza de 1953 e no Festival de Berlim de 1954:


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Agradecimentos: à minha professora de linguagem de impresso, Margarete Vieira Pedro, por ter me passado a pauta, e à Prefeitura de São Bernardo do Campo e às secretarias de Cultura e Comunicação, por terem topado em participar da entrevista publicada neste blog, ou seja, mídia espontânea, nada de renome. Obrigado de verdade!

domingo, 15 de julho de 2012

Crescer para ser super-herói

Foto: divulgação/Sony Pictures

Um adolescente geek é picado por uma aranha radioativa e ganha superpoderes de características aracnídeas. Você provavelmente já conhece essa história. Se não a leu nos quadrinhos da Marvel ou não a viu nos desenhos animados, deve ter dado uma conferida nela no primeiro filme da trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi entre 2002 e 2007. O diretor não fez feio em seu trabalho. Soube construir filmes de forte personalidade que estão na memória de quem estava em fase de crescimento (e quiçá de adultos felizes) na década anterior. E por uma questão de manter os direitos de adaptação em dia, a Sony Pictures decidiu fazer O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), reboot dirigido por Marc Webb e primeira peça de uma nova trilogia.

Obviamente existem várias semelhanças entre este filme e o de 2002. Afinal de contas, toda a trama gira em torno apenas de Peter Parker/Homem-Aranha. Mas o novo filme esbanja frescor em seu formato, na abordagem do protagonista e do cenário em que ele vive. Se no primeiro filme de Sam Raimi já víamos Peter Parker vivendo a brutalidade de uma cidade grande como Nova York, os acontecimentos igualmente brutais que a vida pode reservar para pessoas comuns e o que um herói representa para uma sociedade problemática, no filme de Webb, o maior foco é Peter como um adolescente. Alguém que antes de ser super-herói, deve ser maduro para assumir compromissos que fazem diferença na vida de quem está ao seu redor. Aqui, o viés dessa premissa é mais sério que o de Raimi, e isso se reflete até na fotografia do filme, que é mais escura. Vários acontecimentos se desenrolam à noite, não há muito espaço para músicas animadas e o clima melancólico é praticamente o âmago da trama. Como em seu brilhante filme anterior, a comédia romântica (500) Dias com Ela, Webb dá maior foco aos relacionamentos e questionamentos pessoais de seus personagens do que na ação externa.

Desta vez, após achar uma maleta de seu pai no porão da casa dos tios, Peter Parker quer saber mais sobre a morte de seus pais e as misteriosas circunstâncias em que ela aconteceu. Em uma tocante cena, ele é deixado ainda criança pelo casal com seus tios-avôs Ben e May (Martin Sheen e Sally Field, ótimos em seus papéis). Seu caminho cruza com o do Dr. Curt Connors (Rhys Ifans). Ele e o pai de Peter foram amigos no passado e há relações entre as pesquisas do doutor e o sumiço dos Parker. Connors é um cientista que tem apenas o braço esquerdo e tenta reverter sua situação ao combinar DNA humano e animal. O objetivo dele é emocional também. Ele liga necessidades especiais a vazios internos que pessoas podem ter. O DNA de um réptil é usado para fazer o soro a partir de uma equação de Peter. O doutor se usa como cobaia e há um efeito colateral. Pronto: ele se transforma no grotesco e ameaçador Lagarto e o Homem-Aranha se sente na responsabilidade de pará-lo.

 A quarta visita do Cabeça-de-Teia às telonas tem um 3D desncessário, mas não se preocupe, pois o roteiro é uma graça. Na foto: Andrew Garfield e Emma Stone em cena do filme. (Divulgação/Sony Pictures)

Aparentemente, O Espetacular Homem-Aranha foi buscar referências em filmes como Batman Begins e X-Men: Primeira Classe. Mas ao contrário deles, apresenta-se como dono de seu nariz apenas quando o terceiro ato chega. E aliás, que terceiro ato. Observa-se nele mais as mãos do roteirista veterano Alvin Sargent (da primeira trilogia e do espetacular Julia) do que as de seus colegas Steve Kloves (Harry Potter) e James Vanderbilt (Zodíaco). Andrew Garfield foi o escolhido para interpretar o herói dessa vez. Ainda desconhecido, mas elogiado por suas performances realmente notáveis em A Rede Social e Não me Abandone Jamais, ele deita e rola na pele de Peter Parker. Reconheceu que pelo menos neste filme, sua função estava mais para ser competente do que excepcionalmente marcante. A esperta e bela Gwen Stacy é interpretada com eficiência por Emma Stone, espantosamente parecida com a personagem dos quadrinhos clássicos da Marvel.

Há quem diga que essa quarta aventura do Aranha nos cinemas é desnecessária. Mas os observadores mais atentos perceberão que, na realidade, Marc Webb apenas preparou terreno para os próximos dois filmes (motivo pelo qual comparei este primeiro a Batman Begins e o mais recente dos X-Men). Fica claro que O Espetacular Homem-Aranha poderia ter subido mais alguns degraus, mas o diretor opta por não fazê-lo porque sabe que dispõe de tempo para surpreender e fisgar de vez sua plateia. Ele já provou que visão não lhe falta – só precisará encarar a face de um público imediatista e que adora se debruçar em expectativas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Após hiato de sete anos, Fiona Apple retorna tão idiossincrática e febril quanto antes


(Divulgação/Epic)

Fiona Apple demorou, mas voltou. Seu último álbum de inéditas foi lançado em 2005 – Extraordinary Machine foi engavetado pela própria gravadora antes de chegar às prateleiras reais e virtuais mais de três anos após sua gravação. Aparentemente porque a Epic Records achou o conteúdo do disco muito anticomercial. Quando saiu (por causa da insistente campanha feita por fãs, “Free Fiona”), apesar da aclamação, ficou evidente que demoraria até vir outro álbum. Mas agora, sete anos depois, ao lado de nomes que também não gravavam material inédito há algum tempo (como Garbage e Patti Smith), a cantora, compositora e pianista retornou da melhor forma que podia: tão boa quanto antes. Produzido por ela própria e Charley “Seedy” Drayton, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do (2012, Epic Records), talvez seja o álbum de sonoridade mais crua e idiossincrática que Fiona já lançou. Como compositora, ela continua demonstrando amadurecimento e criatividade. Como pianista, cada vez mais marcante e imprevisível. Como cantora, cada vez mais febril e intensa (vide as faixas "Every Single Night", "Anything We Want" e "Hot Knife"). Tudo isso faz de Fiona Apple um dos nomes mais interessantes que o cenário da música alternativa nos apresentou lá na década de 1990, quando a moça nem 20 anos de idade tinha. E como outros artistas de obras coesas, talvez ela tenda a lançar seus trabalhos entre longos intervalos. Mas, por favor, que não sejam tão longos quanto o último. Fiona Apple é do tipo que faz falta.

domingo, 15 de abril de 2012

Fora dos eixos

 (Divulgação)

Quando seu futuro é promissor, por qual razão você o temeria? Quando seu futuro se transforma no dia de hoje e ele não é bem do jeito que estava prometido, você faz o quê? O filme Jovens Adultos (Young Adult, 2011) trabalha com essa premissa – tudo fora do lugar, nada como foi prometido e você não sabe o que fazer.

Charlize Theron, em mais uma estupenda interpretação, é Mavis Gary, uma ghost writer de ficção para adolescentes que vive o parágrafo acima. Deprimida, alcoólatra e boca-suja, decide retornar à cidade onde vivia quando jovem com o intuito de reatar um namoro do colegial. O nome do alvo é Buddy Slade (Patrick Wilson), que está casado e tem um bebê recém-nascido: dois itens que são apenas meros detalhes para a anti-heroína maquiavélica e fora dos eixos.

O que acontece com Mavis é bem complicado. Ela está fortemente presa ao passado (observe a metáfora que é o carro dela) e decepcionada com seu presente, que é um futuro não planejado. Insatisfeita com a vida na cidade de origem, Mavis foi atrás de seus sonhos na cidade grande, ao contrário de seus colegas e familiares. Ela fez faculdade e tornou-se bem sucedida no trabalho, o que geralmente acontece com quem segue esse caminho. Mas no dia de hoje, só há o vazio promovido pela sensação de que o que ela fez não foi o suficiente para sentir-se satisfeita.

Ao voltar a Mercury, em Minnesota, Mavis observa que tudo por lá ficou do jeito que ela deixou. As pessoas não mudaram, mas ao contrário dela, está todo mundo aparentemente bem (sendo exceção Matt Freehauf, personagem de Patton Oswalt). O filme trabalha com essas reflexões do que é felicidade para cada pessoa e as decisões que elas tomam para construírem suas vidas – é definitivamente o roteiro mais espinhoso, imprevisível e profundo de Diablo Cody, bem mais parecido com os de seu extinto seriado United States of Tara.

 Charlize Theron e Jason Reitman no set de filmagens (Divulgação)

Jovens Adultos é o mais novo filhote da amizade da roteirista e do diretor Jason Reitman. Anteriormente, ambos levaram para os cinemas o agridoce Juno (2007) e a comédia de horror Garota Infernal (2009), este apenas produzido por Reitman. Mas é neste terceiro filme que ambos estabelecem uma sintonia e ponto final. A direção de Reitman é certeira e se basta no que precisa ser posto na tela, um daqueles casos em que a lente da câmera se torna de fato os olhos do espectador. O roteiro de Cody esbanja personalidade e é saudosista até não poder mais. O contexto musical que a autora geralmente insere em suas tramas é quase uma personagem, lembrando bastante escritores como Elizabeth Wurtzel e Nick Hornby. Os atores estão em cena usando camisetas de bandas como The Breeders e Pixies.

Além do tímido desempenho na bilheteria, o que este filme tem de notável não é apenas seu contexto cheio de pequenas partes e o tão comentado terceiro ato, que convenceu Jason Reitman a assumir a direção, mas a simplicidade e honestidade para colocar à mesa assuntos tão delicados e abrangentes. Peter Travers, crítico da Rolling Stone, bem disse: “justo aviso: as risadas em Jovens Adultos deixam feridas”. A marcante atuação de Charlize Theron, o afiado roteiro e a trilha sonora repleta de clássicos do rock dos anos 1990, também ajudam o filme no que parece ser um de seus objetivos: partir corações, assim como a vida real faz, apesar de todos os sonhos.


(Atualização: em 20/4/2015, às 12h17. O vídeo foi trocado por outro com legendas, e erros de gramática foram corrigidos.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eficiência e sutileza fazem de 'Histórias Cruzadas' um bom 'feel good movie'

(Foto: divulgação/Touchstone Pictures)

Em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, nós somos apresentados a uma história num interessante período e local: o sul dos Estados Unidos da América (mais especificamente o estado do Mississippi) na década de 1960. Sabe-se que essa foi a época em que Martin Luther King travava batalhas pela igualdade dos negros na sociedade, ao mesmo tempo em que o preconceito no sul dos EUA era ainda mais espinhoso – essa região do país é conhecida por seu histórico de intolerância diante de grupos minoritários. É esse o quadro encontrado pela jornalista recém-formada Skeeter (interpretada por Emma Stone) ao retornar para a cidadezinha de Jackson.

Se o período é borbulhante em termos de acontecimentos históricos, Histórias Cruzadas decide abordar apenas a faceta doméstica e feminina do relacionamento da sociedade com as pessoas “de cor”, como são chamadas algumas vezes no decorrer do filme. Empregadas negras que trabalham muito e ganham pouco educando (e se afeiçoando aos) filhos de seus patrões brancos, estão presas à corrente do preconceito: suas mães trabalhavam como empregadas para brancos, e por falta de oportunidades, suas filhas fizeram o mesmo. Lá, elas encontram sempre a mesma situação, que é receber um tratamento autoritário e por vezes desrespeitoso de seus patrões, ao mesmo passo em que educam seus filhos, que se tornarão adultos como seus pais. A recém-abolida escravidão ainda projeta uma sombra de atraso no cotidiano dessas pessoas.

A aspirante a escritora Skeeter tem educação acadêmica e os horizontes mais expandidos do que os de seus vizinhos, e reconhece como são desnecessários os preconceitos e as medidas tomadas pelos patrões, como a de construir banheiros apenas para seus empregados. A própria personagem também foi criada por uma negra, enquanto sua mãe mais se preocupava em ter status entre suas amigas. Skeeter arranja um emprego no jornal local em uma coluna de dicas domésticas. Para isso, conta com a ajuda de empregadas negras. Quando suas amigas torcem o nariz para sua iniciativa, ela decide escrever um livro repleto de relatos das empregadas em seus anos de trabalho nas casas de brancos.

Emma Stone tem uma performance madura em Histórias Cruzadas. (Foto: Touchstone Pictures)

Começando por Aibileen (Viola Davis) e depois partindo para a brilhante e rebelde Minny (Octavia Spencer), os relatos vão sendo recolhidos e escritos. Enquanto isso, Skeeter bate de frente com quem destrata as empregadas. E não demora muito para esse grande grupo que elas formam começar a vibrar com a audaciosa empreitada de Skeeter; e embora o livro seja um segredo, os brancos se mostram receosos diante do ar de mudança que invade suas vidas.

O longa foi baseado no romance A Resposta, de Kathryn Sttocket (amiga do diretor Tate Taylor), e, acima de tudo, vem recebido elogios pelas convincentes e notáveis interpretações de seu grande elenco feminino. Pode ser considerado um dos primeiros filmes “sérios” de Emma Stone, que consegue subir mais um degrau em sua carreira. Também há as marcantes atuações das veteranas Viola Davis, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Bryce Dallas Howard e a recém-revelação Jessica Chastain brilham com graça ao lado das outras coadjuvantes. A parte técnica do filme também não deixa a desejar. Sua fotografia, seus planos e seu figurino sustentam bem a vibe de feel good movie.

Mesmo com sua boa estrutura, bonita decoração e sua contagiante empolgação, este filme anda também levantando debates entre seus espectadores e críticos sobre o próprio retrato feito por ele. Ora bolas, os únicos problemas que os negros tinham no interior dos EUA durante os anos 60 eram apenas ter que usar um banheiro separado para eles nas casas de seus patrões? E essa trama pode ter uma inconsistência em seu espírito: quer ser antirracismo ao mesmo passo em que a possibilidade de mudança na vida dos negros é posta pelos brancos de cabeça mais aberta às diferenças? Apesar de tão bem feito e discutível (como o período em que a história acontece), Histórias Cruzadas não se deixa abalar pelos seus desdobramentos não-intencionais, e isso fica bem claro em seu clima positivista, que com traços de drama e comédia se estabelece como um filme bem definido que não tem pretensão de causar barulho.

Uma de suas grandes sacadas é optar pela boa e velha situação acontecida outrora mas não muito diferente do que acontece hoje em dia. Difícil de questionar o papel de um filme como esse em uma sociedade que ainda insiste em ter seus setores racistas e dá mais valor a quem é rico e tem status do que aos trabalhadores que a sustenta. Ainda mais quando ele tem em sua manga a carta da simpatia e da leve reflexão.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 and life keeps going

Em 2012, eu pretendo ser mais desapegado. Pretendo rejeitar agressões de idiotas, assim como a Maggie Gyllenhaal em Away We Go. Pretendo colocar a mão na massa sem medo novamente, a fim de realizar todos meus objetivos. Pretendo olhar por onde ando e tropeçar menos no chão. Pretendo beber e me divertir mais. Pretendo estabelecer definições e expandir ainda mais minha paciência. Pretendo viajar.

Pretendo não ser estúpido o suficiente para misturar vodca com Toddynho – ou seja, não misturar o que não se deve misturar. Pretendo concretizar muito do que ainda está no estágio de preparação. Pretendo gastar mais dinheiro com futilidades indispensáveis, tipo filmes e livros. Pretendo escrever mais, pois o fiz bem pouco em 2011. Pretendo deixar cada um com sua ignorância orgulhosamente instalada e continuar apegado às minhas certezas e vontades.

Pretendo chegar a uma necessária conclusão – remendar o coração ou mantê-lo em pedaços só por via das dúvidas? Pretendo ir mais ao cinema, e de preferência com as ótimas companhias que são esses meus amigos incríveis. Pretendo comprar o tão desejado Converse All Star verde. Pretendo ler mais e expandir os estilos. Pretendo ler Hilda Hilst. Pretendo tentar com mais vontade colocar minha timidez de lado toda vez que meu amigo do entre-pernas tiver uma sugestão. Pretendo fazer uma tatuagem.

Pretendo conhecer mais pessoas, fazer mais amizades e manter laços já existentes. Pretendo ser mais Tom Hansen e menos Summer Finn. Pretendo comprar dois dicionários grandes e bonitos. Pretendo continuar com o que já pratico e me faz bem. Pretendo pelo menos em 2012, ser mais movido pelas certezas do que pelas dúvidas e pelas curiosidades. Pretendo rever mais filmes que gosto e pelos quais dedico aquela gostosa nostalgia. Pretendo deixar muita coisa ir e muita coisa vir.

Pretendo não parar de pretender. E caso não caiba tudo em um ano só, que caiba nos seguintes – pois pretendo desacelerar ainda mais o meu imediatismo. E pretendo continuar assim, tanto planejador quanto realizador.

Feliz ano novo para você também. Agora está tocando Pixies.

sábado, 8 de outubro de 2011

Sobre novos projetos das minhas paixões platônicas

[ATUALIZAÇÃO - à 0h31, do dia 13/10/2011]

Ando muitíssimo ocupado, tendo meus dias abarrotados de correria, estudos e trabalho. Consequentemente, não pude passar cinco minutos na frente do computador para postar neste blog, que em contrapartida, sobrevive firme e forte.

Comecei a sentir chutes no estômago para escrever aqui novamente e o mais rápido possível quando o elenco do não-mais-chamado Lamb of God, primeiro filme de Diablo Cody na direção, começou a ter nomes confirmados no elenco. Logo na mesma semana, finalmente saiu o trailer de Young Adult (roteiro dela!), cuja estreia está prometida para 16 de dezembro nos EUA e 3 de fevereiro aqui no Brasil. Como se não fosse o suficiente, confirmaram que o novo projeto de Matthew Vaughn é nada mais nada menos que Superior, outra HQ de Mark Millar.

Então vamos por partes.


Parece que continuam investindo pesado em Diablo Cody, mesmo que United States of Tara tenha sido cancelado pela queda de audiência, e Jennifer's Body se tornado uma decepção na crítica, no público e principalmente nas bilheterias. E mesmo tendo na manga uma revisão de roteiro para o remake de The Evil Dead, o seriado The Breadwinner e as adaptações dos romances Sweet Valley High e Breathers: A Zombie's Lament, o trailer de Young Adult foi divulgado dizendo que quer Oscar. Ele é dirigido por Jason Reitman, que tem várias indicações ao prêmio e uma quase-vitória na categoria de melhor roteiro adaptado por Amor sem Escalas. Charlize Theron já ganhou por Monster e não faz muito tempo que Diablo Cody apareceu na tal cerimônia usando um vestido de estampa de oncinha e saiu de lá com o prêmio da categoria de melhor roteiro original debaixo do braço pelo memorável Juno.

Além disso, Octavia Spencer, que possivelmente abocanhará uma indicação de melhor atriz coadjuvante ano que vem por Histórias Cruzadas, foi confirmada no debut de Diablo na direção. O projeto que já se chamou Lamb of God atualmente não tem um título definido, mas os nomes de Octavia, Julianne Hough e Russell Brand estão confirmados no elenco. A comédia será sobre uma garota que perde sua fé depois de um acidente de avião e decide ir para Las Vegas ter uma vida de pecado. Diablo Cody disse que se trata de "uma boa história de Natal".

Minhas perspectivas: não é segredo que a palavra "Oscar" pode fazer um filme ou um artista irem longe, mas qualquer deslize por parte deles é motivo para vermos tomates podres sendo atirados das mãos de boa parte da crítica e do público. Diablo ganhou o prêmio por Juno e foi alfinetada pelo relativo fracasso que foi Jennifer's Body. Se qualquer um de seus vindouros projetos ter o mesmo destino do segundo, ela será crucificada novamente.

Acho que qualquer filme transcende um rótulo que um Oscar ou uma crítica pode dar. Sou fã (praticante) de Diablo Cody porque não há quem escreva como ela. A moça tem muita criatividade. Suas histórias são absolutamente imprevisíveis, com diálogos afiadíssimos, sempre tendo uma essência emocional e humana. Toda a trama vai se desenvolvendo a partir disso. Difícil de não ver conexões entre a realidade do cotidiano e a estupidez ou brandura de personagens como Juno e Mac MacGuff, Needy Lesnicki ou até mesmo Jennifer Check.

Minha confiança na roteirista-tatuada-e-ex-stripper vai firme e forte, com ou sem Oscar em qualquer momento de sua carreira. Que continue escrevendo e se aventurando.

Aí vai o trailer de Young Adult, com direito a Queen Bitch, de David Bowie, tocando ao fundo:





A outra parte é sobre o novo projeto de Matthew Vaughn.

É a adaptação de Superior, HQ de Mark Millar e Leinil Francis Yu. Não se sabe se Vaughn vai dirigir, roteirizar, produzir ou todas as alternativas anteriores.

(Foto: Icon Comics)

Há algum tempo, Jane Goldman, braço direito de Vaughn, desmentiu em seu Twitter que estava escrevendo um roteiro para Kick-Ass 2, mas disse que tinha na manga outro projeto para o "amável Matthew V". Algum tempo depois vieram os boatos: possivelmente, Jane se referia a Bloodshot (da Valiant Comics) na ocasião. Mas agora, com a confirmação do projeto aqui citado, fica difícil de dizer. Temos que esperar mais notícias sobre qualquer um deles.

Superior, a HQ de Millar e Yu, começou a ser publicada pela Icon Comics (apadrinhada da Marvel) em 2010. É sobre Simon, um garoto de treze anos que tem esclerose múltipla e é um grande fã de super-heróis. Um de seus prediletos é Superior, ícone esquecido de quadrinhos, filmes e merchandising. Quando um macaco alienígena desce à Terra a fim de realizar um desejo apenas para o protagonista, Simon é transformado no herói.

Numa entrevista a CBR, Millar disse sobre Superior: "O super-herói é uma referência aos grandes da era de ouro, um personagem romântico meio fora de época, em quem o mundo moderno não tem muito interesse. Ele está aí faz décadas, em quadrinhos, filmes, programas de TV e lancheiras, mas ninguém mais liga. Acabaram de tentar relançá-lo com um filmão, mas nem isso dá certo e ele é um personagem quase esquecido. É um ícone dos EUA, mas preso a uma ideia dos EUA que ficou para trás (...) Tem grandes cenas de ação, supervilões, aliens, robôs e tudo que você espera, mas, no fundo, é uma fábula moral."

Minhas perspectivas: tudo que Mark Millar escreve é fora do comum, cheio de espinhos e apaixonante, além da pegada cinematográfica. Possivelmente Jane estará envolvida no projeto, e possivelmente estará envolvida em Bloodshot caso este seja confirmado - os êxitos dela e de Vaughn trabalhando em conjunto já deixam claro que a melhor aposta é ter ambos atrás das câmeras quando se quer fazer um filme diferente, estiloso e estruturado. Será ótimo assistir a mais uma adaptação de uma história de Mark Millar feita por eles.

Já que pelo menos há a confirmação de um, que venham mais notícias!

Agora deixo o blog com todos esses bolos no forno porque tenho um sábado duro pela frente. Mas não vejo a hora de voltar aqui com mais novidades.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

'X-Men: First Class' - discussões - parte 2

Depois do (até que) curto tempo de espera, First Class finalmente estreou e os elogios do público e da crítica são de deixar qualquer fã orgulhoso!

Enquanto a mídia insiste em dizer que quem engravidou a atriz January Jones (Emma Frost) foi nosso belo diretor Matthew Vaughn (apesar de fontes seguras já terem negado tal feito), a roteirista (e uma de minhas paixões platônicas) Jane Goldman e o próprio Vaughn, andaram dando boas entrevistas para divulgação do filme.

(Foto: Getty Images)

A de Vaughn (foto acima) saiu pelo Screen Geek. É a segunda parte da entrevista, a primeira foi publicada há algum tempo. Como ambas estão em inglês, aí vão os links para a página oficial: primeira parte da entrevista (reprisando) e segunda parte. Sempre vale a pena ler as palavras de Vaughn. Ele realmente foge do padrão de Hollywood e não "tem dedos" para falar de qualquer coisa. É muito sincero e autêntico. Também é muito bom para falar sobre detalhes que muitas vezes são deixados na sombra da produção de um filme.

(Foto: Getty Images)

A de Jane Goldman (foto acima) saiu pelo Pipoca Moderna, que por sua vez, não revela a verdadeira fonte. E como está traduzida, aí vai:

Como aconteceu o seu envolvimento no X-Men: Primeira Classe?
Matthew vinha discutindo com a Fox a possibilidade de dirigi-lo e quando eles deram o aval, tinham um roteiro que ainda não havia sido aprovado, então não se importaram que Matthew explorasse outras ideias. Assim, ele me convidou para ajudá-lo.

Depois de quatro roteiros juntos, como é essa pareceria com Matthew na prática?
Ela se transformou em amizade. Nós gostamos de trabalhar juntos e nos sentimos muito à vontade. Nós abordamos as coisas de maneira diferente, mas no fim as nossas contribuições se encaixam perfeitamente. E, obviamente, fica cada vez mais fácil, o que é ótimo. O Matthew aborda tudo do ponto de vista de diretor, ele já tem uma visão do filme na cabeça, a minha abordagem é diferente. Em termos de estrutura, o Matthew tem uma visão mais forte. Em termos de ideias de cena e de ação, nós dois pensamos do mesmo jeito, mas desenvolvimento dos personagens e diálogo é o meu forte. Muitas ideias se cruzam e nunca acontece de o Matthew sugerir um diálogo e eu dizer “ah, não, isso é assunto meu”. Tudo acontece naturalmente sem muita análise.

Já que você é fã de revistas em quadrinhos, como foi poder criar em um universo tão abrangente como do X-Men?
Foi muito empolgante. Obviamente eu era fã dos quadrinhos dos X-Men, mas como já houve muitas interações, especialmente nos últimos anos, foi bom ter a oportunidade de retornar aos originais bem do começo. Felizmente, eu tinha todos os clássicos em casa, eles fazem parte da coleção do meu marido (o apresentador de TV Jonathan Ross)! Mas para lê-los, eu recebi instruções rigorosas sobre ter as mãos limpas… e tinha aqueles sacos prateados de armazenamento espalhados pela casa toda! Mas foi fascinante poder voltar no tempo e restabelecer essa conexão. Algo que o Matthew e eu sentimos, como fãs de quadrinhos, é que quando novos escritores e artistas assumem uma série já estabelecida, eles devem respeitar o que já foi feito, ao mesmo tempo em que precisam explorar e imprimir suas visões. Em termos de fidelidade aos cânones dos X-Men, sempre houve discrepância nos quadrinhos, então foi bom ter certo grau de liberdade, ao mesmo tempo respeitando a história.

A época em que o filme se passa ajuda a sugerir Malcolm X e Martin Luther King na dinâmica entre Magneto e o Professor X?
Sem dúvida. Não sei se foi graças a isso que o produtor Bryan Singer teve a ideia de fazer um filme de época, mas sem dúvida faz parte do relacionamento deles. Ele também aborda um estágio na vida das pessoas em que as suas ideias estão se formando – as experiências que as levam a determinado caminho – , ideias que as guiarão nas suas ideologias. As coisas que acontecem com você determinarão o seu caminho e a maneira que você virá a interagir com outras pessoas. Na verdade, o conceito de que as coisas não são branco e preto e o momento em que elas se cruzam é fascinante, é disso que eu gostei.

Como funciona a interação entre os dois personagens e os lados adversários?
Sebastian Shaw é o vilão, mas em termos do grupo X-Men, no início não há um lado certo ao qual você se aliar. Depois isso se transforma e você vê a direção que cada um toma. É bom não ser uma pura questão de bem ou mal. De certa maneira, o suposto lado mal é bem razoável. Isso é interessante porque a vida é assim, não é? Acho que Kevin Bacon representa o puro mal, mas o interessante é que se percebe no Magneto resquícios dos ideais que o Sebastian defende, que na verdade ele respeita. E também há coisas que o Charles defende que ele respeita. É interessante ver a decisão que os personagens tomarão na hora H.

Como você fez de Charles Xavier – esse ícone da pureza – uma pessoa com imperfeições?
Com a ajuda de James McAvoy, achar as imperfeições, esse sim foi o nosso grande desafio, achar falhas no Xavier e dar mais facetas e humanidade à sua personalidade. Acho que acertamos em cheio no complexo de Deus dele. Esse desejo dele de consertar todo mundo, se você aplicar na vida real, não é fácil passar a vida pensando desse jeito. Esse desejo total de mudar as pessoas e moldá-las conforme a sua ideia do que é bom ou ruim gera conflito. Ele parece muito com Yoda – as emoções não o atingem. Foi interessante tentar descobrir as facetas da personalidade dele, e o James contribuiu muito quando se juntou ao projeto. Nós fizemos muitas alterações a partir de conversas que tivemos com ele, nós exploramos mais áreas. Ele tem uma ótima interpretação do personagem, ele é genial.

Como você aborda os personagens mutantes periféricos? É uma questão de escolher os que se encaixam melhor na história ou você usa os seus favoritos?
É um pouco dos dois, para ser honesta. Acho que alguns são obviamente interessantes. Alguns são intrínsecos à história e tem alguns, certamente um caso específico, que ele tem um superpoder tão legal que nós tínhamos de usá-lo! A Fox nos deixou à vontade para escolhermos quem quiséssemos. As possibilidades eram encantadoras. É claro que os personagens também tinham de ser desenvolvidos. Não é apenas o caso de usá-los a esmo, espero que tenhamos criado uma dinâmica interessante em termos das decisões que eles tomam. Ter alguns personagens que sobre os quais não sabemos muito também é bom porque a gente pode se identificar com eles. Eles entram na história pela primeira vez e estão testemunhando esses dois personagens principais formarem as suas ideologias. São as decisões que os personagens que nós não conhecemos tomam e que representam a visão nova.

Você já pensou que rumo a história tomaria de agora em diante?
Para ser sincera, nós não pensamos no próximo. Certamente não é um assunto sobre o qual tenhamos conversado. Este filme não foi feito com o seguinte em mente. Isso seria perigoso. É melhor nos concentrarmos no filme atual.

[ATUALIZAÇÃO - 09/06/2011, às 18h35]

No dia de estreia de First Class, o Bleeding Cool publicou um texto sobre a polêmica questão dos créditos de roteiro deste filme. Aqui há interessantes comentários dos quatro envolvidos: Jane Goldman, Matthew Vaughn, Ashley Edward Miller e Zack Stentz. Eles também comentam o fato de que Jamie Moss é responsável por um dos rascunhos e não foi reconhecido pelo WGA. Ao ler o artigo, dá para entender que cada um merece o crédito que teve, seja na parte de roteiro, seja na parte de concepção na história (Bryan Singer teve uma ideia e usou elementos de um roteiro de Sheldon Turner).

Levando em conta o comentário de Goldman (não o tanto quanto ríspido de Vaughn), dá para concluir que, ela e o diretor mudaram bastante o roteiro quando tomaram conta da última revisão, fazendo a versão final do texto a partir de elementos do rascunho de Miller e Stentz. A postura desses dois últimos foi defensiva, é claro. Disseram que trabalharam semanas com Goldman e Vaughn na última versão do roteiro.

Resumindo, todo mundo que merecia crédito foi creditado, tirando Jamie Moss. Falando dele, seria interessante saber do roteiro que ele fez, para ver o que foi aproveitado do tal rascunho.

sábado, 4 de junho de 2011

Primeira Classe é o trabalho de um excelente filmmaker na direção e de outro excelente filmmaker na produção – e o resultado vai bem além disso

[RESENHA SEM SPOILERS]


X-Men: Primeira Classe é um daqueles filmes que nunca teriam como dar errado. Não com um cineasta visionário na produção e na feitura da história (Bryan Singer) e outro cineasta visionário na direção (Matthew Vaughn).

Fica até difícil de saber por onde começar a falar sobre este filme. É uma grande junção de partes que estruturam um contexto absolutamente ambicioso. A essência é puramente emocional, assim como em todos os outros filmes dirigidos por Matthew Vaughn. A auto-aceitação é retratada aqui como uma versão não expandida de conflitos que definem nossa sociedade como esse caldeirão de confusões dos mais variados tipos. Os jogos de interesses políticos fluem com precisão (o que não deve faltar quando se trata de X-Men em qualquer mídia), e fatos verídicos da história da humanidade são inseridos com bastante audácia na trama mutante. É tudo muito sugestivo e incisivo: exatamente o que a franquia precisava. Desde que Bryan Singer a deixou, depois de dirigir os fabulosos dois primeiros filmes, a conclusão não foi muito bonita. O Confronto Final e Wolverine tiveram produções sofridas e resultados inconsistentes. Nem todo mundo gostou. Agora que Bryan Singer voltou e provavelmente não vai embora de novo, o rumo já está definido.

Depois de aceitar e sabiamente desistir da direção de O Confronto Final (e criticar com razão o resultado), Matthew Vaughn aceitou, recusou, e aceitou novamente a direção de Primeira Classe. Foi uma feliz escolha dos produtores. Dessa vez eles ofereceram ao diretor mais independência e liberdade criativa. Isso se deve ao grande êxito da carreira de Vaughn. O nome desse êxito é Kick-Ass, e só vendo para compreender o que este filme é. De qualquer forma, o tal diretor levou seu estilo para uma produção supervisionada por Bryan Singer, o que fez muita gente erguer as orelhas para prestar atenção no projeto. Depois, junto com as notícias que iam saindo enquanto o filme estava sendo feito, os comentários receosos vieram: a divulgação da história, junto com outros fatores, denunciou uma série de discrepâncias de continuidade com os outros filmes. Os atores não são celebridades. Muitos personagens. Muitos nomes nos créditos de produção. Muitos nomes nos créditos de roteiro (o que causou uma pequena confusão que chegou até o sindicato dos roteiristas dos EUA). Material promocional em excesso e de qualidade duvidosa. Apenas aproximadamente um ano entre o anúncio do filme e sua estreia. E agora que ela chegou e os elogios são no mínimo rasgados, os comentários receosos cessaram, apesar dos comentários ácidos continuarem.

Os autores desses comentários são os fãs que irredutivelmente prezam pela fidelidade total aos quadrinhos. Primeira Classe revelou-se corajoso por funcionar como uma prequela, reboot, e ter um roteiro original. Apesar de haver referências, a trama não foi extraída de nenhum arco de histórias dos quadrinhos lançados. No filme, alguns personagens se encontram num tempo em que, originalmente, não deveriam estar. Outros personagens perderam seu sotaque. Outros são mudos ou praticamente monossilábicos. Mesmo assim, todos eles têm uma persona fiel à das origens, e funcionam muito bem por aqui. A melhor forma de se livrar desses fantasmas do processo de adaptação de livros ou quadrinhos é simplesmente encará-los como não-definitivos. Eles não têm o objetivo de estabelecer qualquer coisa na “mídia de origem”. O caráter experimental da equipe deste filme falou mais alto e um dos resultados mais aparenta ser uma homenagem aos quadrinhos. Primeira Classe trata a franquia com um novo olhar. Isso aconteceu com outros heróis como Superman e Batman. Falando de Batman, Matthew Vaughn disse que Primeira Classe é parecido com Batman Begins, justamente por se tratar de uma nova interpretação, que começa se apresentando, depois revela seus objetivos. Se a continuação de Primeira Classe for tão espetacular quanto a de Batman Begins, as palavras do diretor se concretizarão. É esse o motivo que Primeira Classe tem para não subir mais degraus do que deveria. Eles serão alcançados nas continuações. Consegue ser ótimo seguindo padrões estabelecidos por si mesmo, tem a própria velocidade, assim como foi com o primeiro filme dos X-Men, de 2000. A ideia da junção de prequela e reboot é levada tão a sério, que cenas do primeiro filme foram refeitas.
Jane Goldman (corroteirista) com parte do elenco: Kevin Bacon, Michael Fassbender, James McAvoy, Zoë Kravitz, Jason Flemyng e Álex González.
O filme por si só é uma beleza. As atuações são equilibradas e certeiras. Ótimo casting. São muitos personagens, mas os rostos dos atores são inesquecíveis. A atenção é muito bem dividida e o carisma dos vilões equivale ao dos heróis. January Jones foi perfeita como Emma Frost. Caleb Landry Jones foi amável como Banshee. James McAvoy é um ator que esbanja talento. Mas o negócio aqui é a atuação de Michael Fassbender como Magneto. De uns tempos para cá, Fassbender anda recebendo a atenção que merece. É um ator que tem uma presença forte e abraça o que for necessário para ser convincente. Quem rouba a cena é ele, falando várias línguas e com sede de vingança.
Jane Goldman e Matthew Vaughn.

O roteiro é muito bem amarrado, o que pode ser considerado um triunfo. Geralmente, quando muitos roteiristas trabalham no mesmo projeto, o resultado é disperso e mole. Felizmente, não é o caso de Primeira Classe. A história foi feita por Bryan Singer, adicionando elementos de um roteiro que Sheldon Turner fez para um spin-off de Magneto. Jamie Moss escreveu um primeiro rascunho (e ficou de fora dos créditos, apesar de ter recorrido ao Writers Guild of America, com a ajuda de Singer), que depois foi reescrito pela dupla em ascensão Ashley Edward Miller e Zack Stentz (de Thor) e finalmente passou por uma última revisão com Matthew Vaughn e seu braço direito, a sempre bela e talentosa Jane Goldman (reprisando a parceria de Stardust, Kick-Ass e do ainda inédito The Debt). A impressão é a de que escreveram o filme sem se importarem com competição entre outros de super-heróis. Como se tudo fosse descoberto numa segunda primeira vez.
Esteticamente, é impecável. Os figurinos, os cenários, toda tecnologia futurista. A veia de anos 60 é bem presente. A fotografia, por sua vez, surpreendeu. É bela e eficiente, mas as cores não são tão acentuadas como nos trabalhos anteriores de Vaughn. E falando dele, mas que direção impecável. Dá gosto de ver. Poucos conseguem dirigir cenas de ação monumentais e imprevisíveis e atores em performances tão respeitosas.

X-Men: Primeira Classe tem uma história muito bem contada e um final que deixa vontade de assistir a continuação no dia seguinte. Infelizmente, haverá um intervalo de dois ou três anos até o próximo, como é típico dos filmes dos X-Men. Mas se a mesma equipe estiver presente para fazer outro filme impecável, a espera valerá. Na próxima vez, em decorrência de seu acerto, provavelmente o diretor deverá ter mais espaço ainda para trabalhar, e menos mãos cuidarão da produção e do roteiro, de forma que sua marca será mais visível ainda.

Matthew Vaughn é um visionário. E tenho dito.


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