Lendo “pulp”, você muito provavelmente se lembra do filme Pulp Fiction (1994), de Quentin
Tarantino, ou da banda inglesa que foi ícone nos anos 1990. Ambos terem a mesma
palavra no nome não é apenas coincidência. Trata-se de referências às revistas
pulp.
Impressas em papel barato – fibra lignocelulósica produzida a partir de
madeira – e com bordas mal cortadas, elas custavam centavos e
abrigavam histórias de terror, ficção científica e mistério, entre outros
gêneros. As capas coloridas e de aspecto sensacionalista, com monstros, robôs
gigantes e heróis em ação ou mocinhas em perigo são uma das marcas registradas
dos pulps. A linguagem era a combinação de textos e ilustrações no miolo. Havia
também propagandas de outros pulps da mesma editora.
História
A primeira revista do estilo foi a norte-americana Argosy Magazine, de Frank Munsey, lançada
em 1896. Tinha 192 páginas e nenhuma ilustração na capa ou internamente. Antes
desse lançamento, ninguém havia agregado impressão a papel barato e escritores
idem. O preço era acessível às classes mais pobres. Resultado: em seis anos, Argosy já vendia quase meio milhão de
cópias mensais.
As revistas pulp começaram a ganhar força nas décadas de 1920
e 1930. Afinal, tratava-se de entretenimento barato na época em que os Estados
Unidos estavam na maior pindaíba por causa da quebra da bolsa de 1929. A coisa
mudou na época da Segunda Guerra Mundial, com a popularização das histórias em
quadrinhos, da TV e dos romances impressos em papel barato. Em 1949, a Street
& Smith Publications – uma das maiores publicadoras especializadas em
revistas pulp e romances baratos dos EUA – cancelou vários títulos e decidiu seguir
em frente investindo em revistas mais caras.
Mas durante essas três décadas, as revistas pulp se consagraram
ao lançar personagens icônicos como Flash
Gordon, Zorro e Tarzan. Vários autores respeitados de
diferentes gêneros passaram por essas revistas. Isaac Asimov, Agatha
Christie e H. P. Lovecraft são
exemplos. Hoje, os pulps são considerados o berço dos quadrinhos de
super-heróis.
Curiosidade: lá
nos anos 30, o grande sucesso da série de rádio O Sombra, que ficou conhecida pelos episódios que tinha a lenda do
cinema Orson Welles como o personagem-título, acabou resultando em um famoso
pulp escrito por Walter B. Gibson.
Conheça alguns pulps
Amazing Stories
(1926-2005): Foi criada pelo luxemburguês-americano Hugo Gernsback, um
inventor e entusiasta da eletricidade. A revista é considerada um dos berços da
ficção científica moderna, visto que na época, o termo ainda nem existia
completamente. Gernsback escreveu no prefácio do primeiro número, apresentando
seu “Novo Tipo de Revista”, engrenada a um “mundo inteiramente novo” que
instruiria além de entreter. Edgar Allan Poe, Júlio Verne e H.G. Wells são citados
como seus “antepassados”. A premiação Hugo Awards menciona Gernsback em seu
nome. Os prêmios são dados a autores e obras em diferentes mídias, sempre com
foco nos gêneros de ficção científica, fantasia, terror e afins.
The Weird Tales (1923):
Apesar de sempre ter lucrado pouco com suas baixas tiragens, a revista existe até
hoje. Foi interrompida em 1974, mas reavivada por outros editores com o passar
dos anos. Poesia, ficção e não ficção eram os gêneros da revista, que abordavam
histórias de fantasmas, invasões alienígenas e forças ocultas. Desde que a
revista foi assumida em 2007 pela editora Ann VanderMeer, a Weird Tales ganhou um Hugo Award na
categoria “Semiprozine” (para revistas semiprofissionais) e teve mais duas
indicações.
Ginger Stories (1928-1936):
As capas das revistas prometiam um conteúdo “picante, pungente, apimentado,
agradável”. Em 1931, o título foi alterado para apenas Ginger pelo seu editor, Frank Armer. A revista é pioneira no que se
trata de girlie pulps, com capas que
realmente traziam “mocinhas” com um notável aspecto erótico. Armer era editor
de pulps semelhantes e chegou a ser pressionado, junto com outros colegas, pelo
Comitê pela Decência Civil de Nova York em 1932, pelo conteúdo “indecente” das
revistas. O editor cedeu e cessou a produção. Reavivada em 1935 por Henry
Marcus, Ginger teve uma versão
completamente diferente até em seu aspecto físico, passando por várias casas
editoriais até terminar de vez em 1936.
Pulps no Brasil
Aqui em nosso País, as revistas pulp ficaram conhecidas como
“revistas de emoção”, segundo o colecionador e pesquisador Athos Eiclher
Cardoso, da Universidade de Brasília.
Especula-se que a primeira tenha sido a Romance Mensal:
Uma Revista Diferente das Outras, lançada em 1934. Dois anos depois, vieram Aventura e Mistério, Detetive e A Novela, que em seus dois anos de vida teve Erico Verissimo como
editor, na Livraria do Globo.
A Contos Magazine é um exemplo de sucesso.
Foi lançada em 1937 e terminou em 1945 com tiragens de 40 mil exemplares com
histórias de piratas, ficção científica e western. O Sombra, personagem ícone,
também apareceu nessa revista. X-9
(1941-1962) e Meia-Noite (1948-1968)
são outros títulos relevantes das revistas de emoção e publicavam histórias de
crime, horror e ficção científica. Na década de 40, Nelson Rodrigues foi editor
da Detetive e escrevia nela sob o
pseudônimo “Suzana Flag”.
Antonio
D’Elia, Patrícia “Pagu” Galvão (usando o pseudônimo “King Shelter”) e R. F.
Lucchetti, roteirista de vários filmes do Zé do Caixão, são alguns nomes de escritores
de pulp brasileiro.
Opiniões de um fã
“No
exterior, as pulp magazines
representam um momento na história da humanidade, certamente único, em que a
leitura foi a forma número um de entretenimento moderno”, diz Roberto de Sousa
Causo (foto à direita), escritor e grande fã de pulps. “Delas resultaram a quase totalidade dos
gêneros literários modernos, e no seu surgimento elas ajudaram a mapear uma
nova paisagem psicossocial. É na literatura de gênero, como afirma o
pesquisador inglês Clive Bloom, que está o verdadeiro registro do sensorium da sociedade democrática
moderna.”
Causo já
trabalhou como escritor e ilustrador na Isaac
Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica, e editor na Quark e Pery Rhodan. Escreveu os livros Ficção
Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 e organizou a série de
antologias Os Melhores Contos Brasileiros
de Ficção Científica – alguma dúvida de que Causo é influenciado pelas
revistas pulp?
Ele diz que elementos das publicações estão por toda parte,
impregnados na literatura de gênero atual. “Como escrevo ficção científica,
fantasia e horror, a partir de uma postura consciente da história e das
características desses gêneros, estou igualmente impregnado pelo ethos* pulp.”
Pulps hoje
Caso você esteja se perguntando sobre o filme de Tarantino, sim, o título de Pulp Fiction
é uma menção às revistas. E isso está em seu conteúdo também, pois os elementos
de sua trama são a cara das histórias em papel barato. Inclusive, Black Mask, um dos pulps mais conhecidos,
serviu de inspiração para o cineasta. Durante algum tempo, o filme teve esse
nome como título provisório.
Já a banda inglesa Pulp tem esse nome por causa do filme Diário de um Gângster (1972), em que
Michael Caine interpreta um escritor de romances de detetive que são impressos no
estilo “paperback”, com as páginas coladas e sem capa dura.
O quadrinho Tom Strong,
do inglês Alan Moore (o escritor barbudo por trás de Watchmen e V de Vingança),
lançado em 1999, é fortemente inspirado em pulps, além de ter bebido na fonte de
histórias em literatura, filmes e quadrinhos dos anos 20 para ser criado.
Recentemente, Dan DiDio, co-publisher da DC Comics, disse
que a editora não tem mais direitos de publicação de antigos personagens pulp
como Doc Savage, The Spirit e Rima. O blog TheBeat disse que a Warner Bros., estúdio que leva ao cinema adaptações de
títulos da DC, sugeriu à editora não investir em personagens antigos e não
rentáveis enquanto há vários outros “subaproveitados”.
Conheça a revista brasileira Lama, que conta histórias através de texto, ilustrações e
fotografias. Todas bem no estilo pulp de ser.
O site pulpword.com tem um acervo de pulps à venda e muitas informações sobre o assunto.
O pulpartists.com também tem um grande acervo de imagens, incluindo o miolo de algumas
revistas.
The Pulp Magazines Project é outro site bem interessante,
onde o objetivo é estudar e preservar as revistas. Há um acervo também.
* “Ethos” é
um termo grego que significa “personagem” e é usado para designar os costumes
de um povo ou uma ideologia
* Imagens são reproduções de: Pulp Mags (Wordpress) / Mercado Livre / The Pulp Magazines Project / Arquivo pessoal do escritor / Fascination Place / Arquivo pessoal do jornalista



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