domingo, 21 de julho de 2013

X-Men: Days of Future Past – o que sabemos até agora (parte 2)

(Divulgação) 

Novidades e mais novidades sobre X-Men: Days of Future Past continuam pipocando. O diretor Bryan Singer continua publicando frequentemente em seu Twitter fotos dos bastidores. Vez por outra, algum paparazzi consegue clicar os atores e a equipe filmando em locais abertos. Em uma dessas ocasiões, conseguimos ver Singer dirigindo a cena de luta entre Fera (Nicholas Hoult) e Magneto (Michael Fassbender) em uma fonte. Ontem, o painel que o filme ganhou na Comic-Con em San Diego foi esclarecedor apenas em alguns aspectos, o que mostra como ele está sendo realizado com bastante sigilo. O público vibrou e aplaudiu de pé a grande reunião do diretor com um dos roteiristas (Simon Kinberg), os produtores e a maior parte do elenco.

Mas vamos continuar com as novidades sobre o filme seguindo as deixas do post anterior, de seis meses atrás. De lá para cá, muita, muita coisa nova surgiu.

Trama, direção, roteiro e produção    
  
Já sabíamos que a história do filme tem origem no famoso arco Dias de um Futuro Esquecido (1981), escrito pelo lendário roteirista Chris Laremont e desenhado por John Byrne, o também lendário desenhista da Marvel Comics.

No quadrinho, os mutantes vivem em um futuro distópico e apocalíptico que pertence a uma realidade alternativa. Eles são perseguidos pelos robôs Sentinelas e presos em campos de concentração. A mente de Kitty Pride (ou Lince Negra) é mandada ao passado a fim de alertar os X-Men sobre o futuro que os aguarda. A partir daí, o grupo de heróis vai atrás de impedir o acontecimento que desencadeia no tal futuro sombrio.

Foi esclarecido que Wolverine (Hugh Jackman) será o personagem que terá sua mente mandada ao passado, em vez de Kitty Pride. A trama se passará em 1973 (onze anos após os acontecimentos de Primeira Classe), com a Guerra do Vietnam como contexto histórico e político escolhido. Sabe-se também que Richard Nixon, presidente dos EUA naquele tempo, será um personagem, embora o ator que o viverá seja desconhecido. Os atores da primeira trilogia estarão no futuro enquanto os da nova habitarão o passado, apontam as especulações. O diretor enfatizou que o aspecto de ficção científica está sendo explorado com mais vigor que nos filmes anteriores. Ele inclusive conversou com James Cameron sobre viagens no tempo e teorias sobre o tema.

Jennifer Lawrence (acima) disse na Comic-Con que, mesmo ainda emocionalmente ligada a Xavier, Mística segue em sua escolha de lutar ao lado de Magneto (Foto: Twitter)

Singer, por sua vez, assumiu a direção de Days of Future Past quando Matthew Vaughn teve de deixá-la para se dedicar a The Secret Service, previsto para ser lançado ano que vem. Ele ficou como produtor e roteirista. Jane Goldman também é roteirista aqui, repetindo a parceria com Vaughn de X-Men: Primeira Classe (2011) e Kick-Ass (2010). Simon Kinberg também tem seu nome no texto. Ele foi produtor em Primeira Classe e é a metade competente da dupla de roteiristas de X-Men 3 (2006).

O que não sabíamos antes é que, segundo o portal IMDb, Bryan Singer elaborou a trama do filme, além de ser diretor e produtor. Já sabíamos também que o casal Lauren Shuler e Richard Donner está produzindo com Singer, Vaughn e Kinberg. Agora, Todd Hallowell, Stan “the man” Lee, Kathleen McGill, Josh McLaglen e Hutch Parker também são produtores.


Equipe com maquete de um cenário do filme (Foto: Twitter)

John Ottman, frequente colaborador de Singer, foi contratado para compor a trilha sonora e cuidar da edição. Ottman cuidou dos dois cargos em X-Men 2 (2003). Os efeitos especiais ficam por conta da Moving Picture Company e da Digital Domain. Ambos os estúdios trabalharam juntos em Primeira Classe. (Clique nos links para conhecer mais trabalhos deles.)

Elenco


Em sentido horário: Charles Xavier (Patric Stewart), Magneto (Ian McKellen), Colossus (Daniel Cudmore) e Bishop (Omar Sy) (Foto: X-Men Films)

Nomes foram adicionados e rumores foram esclarecidos. Seis meses atrás, já sabíamos que James McAvoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Magneto), Jennifer Lawrence (Mística), Nicholas Hoult (Fera), Hugh Jackman (Wolverine), Ellen Page (Kitty Pride), Anna Paquin (Vampira), Shawn Ashmore (Homem de Gelo), Patrick Stewart (Charles Xavier) e Ian McKellen (Magneto) estavam no elenco. Agora, o grupo está ainda maior. Halle Berry, Lucas Till e Daniel Cudmore retornam como Tempestade, Destrutor e Colossus, respectivamente. Fan Bingbing será Blink, a mutante rosa que tem o dom de conjurar portais para viajar no tempo. Após rumores, foi confirmado que Peter Dinklage (Game of Thrones) será Bolivar Trask, cabeça por trás do programa Sentinela e antagonista do filme. Também foi esclarecido que o francês Omar Sy (Os Intocáveis) é Bishop. Josh Helman teve seu misterioso papel desvendado também: ele será William Stryker quando jovem (o personagem foi interpretado por Brian Cox em X-Men 2, por Danny Huston em X-Men Origens: Wolverine e uma versão sênior dele foi brevemente vivida por Don Creech em Primeira Classe). Ainda seguem os rumores de que Booboo Stewart e Adan Canto são Apache e Mancha Solar, respectivamente.

Peter Dinklage e Bryan Singer lendo juntos um trecho do roteiro (Foto: Twitter)

A adição de Evan Peters (American Horror Story) ao elenco como Mercúrio, o filho de Magneto, foi motivo de alguma controvérsia. Antes de Bryan Singer ter anunciado a chegada de Peters, o diretor e roteirista Joss Whedon havia dito que o personagem e sua irmã Feiticeira Escarlate estariam em Avengers: Age of Ultron, a sequência de Os Vingadores (2012) agendada para 2015. Mesmo após o anúncio de Singer, Whedon manteu sua palavra. Agora, Mercúrio estará em ambos os filmes. Ele pertence tanto ao universo dos X-Men quanto ao dos Vingadores, em um “limbo de direitos”. Os estúdios por trás de cada franquia têm o poder de usá-lo, mas sem um fazer alusão ao universo de outro. A dúvida fica no ar: como a será a abordagem de Mercúrio em ambos os filmes? Pelo menos em Age of Ultron, especula-se que Aaron Taylor-Johnson viverá o papel, e que em Days of Future Past, o filho de Magneto viverá nos anos 70. O engraçado é que Peters e Taylor-Johnson atuaram juntos em Kick-Ass, dirigido por Matthew Vaughn.

Foi confirmada a ausência de Caleb Landry Jones, o Banshee. Aparentemente, January Jones (Emma Frost) e Rose Byrne (Moira MacTaggert) não retornam também. Os três estiveram em Primeira Classe, apenas.

James McAvoy (Xavier) em seu figurino anos 70 – o ator adorou (Foto: Twitter)

Comic-Con

Nos dias 18 (quinta-feira) e 20 (sábado) deste mês de julho, X-Men: Days of Future Past teve destaque na Comic-Con, em San Diego.

Cabeça de uma Sentinela no estande da Trask Industries (Foto: X-Men Films)

Dia 18: a cabeça de uma Sentinela foi exposta ao público em um estande da Trask Industries, como se a empresa fosse real, com direito a funcionários uniformizados e tudo. Cartazes como os das fotos ressaltaram, indiretamente, a superioridade da raça humana diante dos mutantes (“Junte-se a nós para celebrar os 50 anos do progresso humano”). Aí vai o sombrio site viral da fábrica de Sentinelas: www.trask-industries.com


Dia 20: O painel do filme durou aproximadamente 40 minutos e teve até a exibição de breves cenas do filme. Diretor, roteirista e produtores participaram do painel junto do enorme elenco. Todos foram aplaudidos de pé pelos fãs, emocionados.

O painel de Days of Future Past começa assim que o de Wolverine – Imortal se encerra. No início do vídeo, vemos James Mangold, diretor de Wolverine, deixando o palco

Mas, na prática, foi mais tiategem do que novidades. O que teve de mais quente foi a exibição das cenas. O vídeo não está disponível na internet, mas segundo o jornalista Matt Goldberg, do portal Collider, consistia nisso aqui (traduzido):

Há muitos mutantes, mas o principal é que podemos ver Xavier, Magneto, Tempestade e Wolverine no futuro. Xavier diz que eles precisam mandar a mente de Logan para seu corpo mais jovem [no passado] e convencer os jovens Xavier e Magneto de impedir o futuro desastroso. No futuro, nós vemos membros do elenco da primeira trilogia em roupas escuras e futuristas, mas não cafonas. São austeras, assim como a paisagem, que não está destruída e pós-apocalíptica como no quadrinho.

Quando Wolverine volta no tempo, nós vemos os personagens de Primeira Classe, e o jovem Xavier aparenta estar absolutamente abatido e cansado. Então nós vemos uma grande montagem de todos os personagens. Os momentos memoráveis incluem Fera tentando afogar o jovem Magneto, e este usando seus poderes para arrastar uma Mística em perigo para perto de si. O trailer termina com o jovem Xavier gritando “Eu não quero seu futuro!”. Então nós vemos o Xavier idoso e jovem se encarando. O idoso diz a sua versão jovem “Por favor. Nós precisamos ter esperança de novo”.


Equipe reunida na Comic-Con de ontem, da esquerda para a direita: Hutch Parker, Patrick Stewart, Halle Berry, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg, Omar Sy, James McAvoy, Ellen Page, Shawn Ashmore, Bryan Singer, Anna Paquin, Ian McKellen, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Michael Fassbender, Evan Peters e Nicholas Hoult (Foto: Twitter)

Adendos

O que vale ser dito também, é que, recentemente, a Fox anunciou um filme da X-Force. Assim, vai ser engrossado o caldo de filmes produzidos a partir do universo dos X-Men. A X-Force estreou nos quadrinhos no início da década de 1990 e muitos X-Men passaram por ela. Jeff Wadlow, diretor e roteirista de Kick-Ass 2 (a ser lançado ainda neste ano), foi contratado para escrever o roteiro. Ele é um dos prediletos a assumir o cargo de diretor também, o que nos leva a crer que a sequência de Kick-Ass deve ser no mínimo boa para render este trabalho a Wadlow. Lauren Shuler Donner, produtora em todos os filmes dos mutantes, trabalhará neste filme. Resta saber como será pavimentado o caminho para a empreitada. Será que haverá uma deixa em Days of Future Past para a aventura cinematográfica da X-Force?

Dica: fique até o fim dos créditos do segundo filme do Wolverine (Foto: Divulgação)

O que se sabe até agora, é que Wolverine – Imortal, que estreia nesta sexta-feira (26/07), tem uma cena pós-créditos que serve de deixa para Days of Future Past. Por ora, deve servir como aperitivo. Diga-se de passagem, também, que o segundo filme solo do Wolverine vem sido elogiado.

Mark Millar, roteirista de quadrinhos por trás de títulos como Kick-Ass, Superior e Wanted, foi contratado pela Fox há algum tempo para servir de consultor criativo. É ele quem está trabalhando junto do estúdio na expansão do universo X nos cinemas. Muito provavelmente, tem dedo dele na escolha de Matthew Vaughn como produtor no reboot que o Quarteto Fantástico vai ganhar nos cinemas e na escolha de Wadlow para escrever o roteiro para X-Force.

Bryan Singer do lado de fora do Cérebro, máquina que amplia os poderes de Xavier e o permite localizar mutantes pelo planeta inteiro (Foto: Twitter)

Conclusão até agora: se a Marvel Studios deu uma festa no cinema com seus Vingadores, chegou a hora da Fox se estabilizar também, tirando a poeira dos inúmeros personagens sobre os quais ela tem direitos de adaptação. Que venham mais X-filmes!

As filmagens de X-Men: Days of Future Past se encerrarão em setembro. A estreia foi adiantada para 23 de maio de 2014, e o filme estará disponível em 3D e 2D.

*Imagens sem crédito: reprodução Twitter e X-Men Films, respectivamente

[ATUALIZAÇÃO - 22/07, às 21h40]

Os primeiros pôsteres oficiais foram divulgados!



segunda-feira, 8 de julho de 2013

Resenha: 'The Spectacular Now', de Tim Tharp

 
(Goodreads/Knopf Books for Young Readers)

Já sabemos que o gênero literário jovens adultos representa uma fatia muito, muito lucrativa no mercado da literatura. Sabemos também que, apesar do nome do gênero, seus leitores não pertencem necessariamente à faixa etária a qual ele é destinado. Não é incomum ver adultos lendo no metrô títulos como Jogos Vorazes.

Já disse aqui que best-sellers não são sinônimo de literatura de boa ou má qualidade. Sou apaixonado por Harry Potter e seus vários níveis em riqueza de construção. Fiquei impressionado com a dureza e o magnetismo de Jogos Vorazes. E penso que um livro sem sal como Lua Nova, da saga Crepúsculo, tem serventia apenas para ser peso de porta, no máximo.

The Spectacular Now (2008, Knopf Books for Young Readers), de Tim Tharp, pertence ao rol de casos em que o alcance de conteúdo supera qualquer cifra gerada por uma febre literária. Nos dias de hoje, ter esse pedigree é essencial para sobreviver ao constante jorro de lançamentos. E para sobreviver nas mentes e nos corações dos leitores também.

Tharp respeita o que parece ser difícil de vários outros autores do gênero respeitarem: as diversas camadas que formam a personalidade de um adolescente. Seus personagens têm uma vida psicológica iluminada, são multidimensionais. Os dilemas enfrentados por eles, as dúvidas sobre o futuro e até suas decisões no presente – por vezes desconcertantes – são tão concretas quanto as de um adulto. Esse embasamento na realidade é um dos sabores mais marcantes de The Spectacular Now. Transcender uma suposta necessidade de agradar aos leitores pode ser uma ótima saída.

Na trama, Sutter Keely é o garoto popular da escola que, depois de ser dispensado pela namorada, se encontra apaixonado por Aimee Finecky, uma garota introvertida que adora ficção científica. O inusitado relacionamento que ambos passam a compartilhar os faz rever, duramente, seus papéis na vida de outras pessoas e na deles mesmos.

O êxito do autor se encontra em ter como narrador seu protagonista. A união do pensamento de Sutter – o modo como sua mente processa os acontecimentos, as conclusões a que ele chega – e do muito bem lapidado texto do autor resulta em um romance inesperadamente incisivo. E de forte identidade também. Não é sempre que vemos um livro jovem adulto ter protagonistas vivendo à sombra dos erros de seus pais, apressados para construir suas próprias vidas e se desviar de qualquer imprevisto.

O namoro que mais tarde desabrocha entre Sutter e Aimee, a ligação do rapaz com o álcool e os obstáculos que problemas familiares podem ser no processo de amadurecimento são algumas das partes que constroem as unidades que são os personagens. Ao concluir a leitura do livro, fica perceptível a unidade que é ele próprio dentro do extenso catálogo de livros jovens adultos.

(Conheça mais sobre o autor em sua página no Goodreads.)

O filme

(Divulgação: A24 Films)

A adaptação de The Spectacular Now para o cinema aconteceu da melhor forma que podia: através da produção independente. Dirigido pelo promissor James Ponsoldt (Smashed) e escrito pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber ((500) Dias com Ela), o filme foi a sensação do Festival de Sundance deste ano. A competente e também promissora dupla de protagonistas, Miles Teller e Shailene Woodley, dividiu o prêmio especial do júri pela sua atuação. O elenco ainda é reforçado por gente como Jennifer Jason Leigh, Mary Elizabeth Winstead e Kyle Chandler. Agendado para estrear nos Estados Unidos dia 2 de agosto, a versão cinematográfica do romance de Tim Tharp parece ter sido realizada por mãos eficientes. Agora resta saber se a estreia do filme no Brasil, ainda não agendada, vai conseguir trazer o livro para cá também.

Veja o trailer:

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Histórias de outros mundos

Revistas pulp tinham histórias de gênero e hoje são consideradas artigos raros além de berço dos quadrinhos de super-heróis

Lendo “pulp”, você muito provavelmente se lembra do filme Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, ou da banda inglesa que foi ícone nos anos 1990. Ambos terem a mesma palavra no nome não é apenas coincidência. Trata-se de referências às revistas pulp.

Impressas em papel barato – fibra lignocelulósica produzida a partir de madeira – e com bordas mal cortadas, elas custavam centavos e abrigavam histórias de terror, ficção científica e mistério, entre outros gêneros. As capas coloridas e de aspecto sensacionalista, com monstros, robôs gigantes e heróis em ação ou mocinhas em perigo são uma das marcas registradas dos pulps. A linguagem era a combinação de textos e ilustrações no miolo. Havia também propagandas de outros pulps da mesma editora.

História

A primeira revista do estilo foi a norte-americana Argosy Magazine, de Frank Munsey, lançada em 1896. Tinha 192 páginas e nenhuma ilustração na capa ou internamente. Antes desse lançamento, ninguém havia agregado impressão a papel barato e escritores idem. O preço era acessível às classes mais pobres. Resultado: em seis anos, Argosy já vendia quase meio milhão de cópias mensais.


As revistas pulp começaram a ganhar força nas décadas de 1920 e 1930. Afinal, tratava-se de entretenimento barato na época em que os Estados Unidos estavam na maior pindaíba por causa da quebra da bolsa de 1929. A coisa mudou na época da Segunda Guerra Mundial, com a popularização das histórias em quadrinhos, da TV e dos romances impressos em papel barato. Em 1949, a Street & Smith Publications – uma das maiores publicadoras especializadas em revistas pulp e romances baratos dos EUA – cancelou vários títulos e decidiu seguir em frente investindo em revistas mais caras.

Mas durante essas três décadas, as revistas pulp se consagraram ao lançar personagens icônicos como Flash Gordon, Zorro e Tarzan. Vários autores respeitados de diferentes gêneros passaram por essas revistas. Isaac Asimov, Agatha Christie e H. P. Lovecraft são exemplos. Hoje, os pulps são considerados o berço dos quadrinhos de super-heróis.

Curiosidade: lá nos anos 30, o grande sucesso da série de rádio O Sombra, que ficou conhecida pelos episódios que tinha a lenda do cinema Orson Welles como o personagem-título, acabou resultando em um famoso pulp escrito por Walter B. Gibson.

Conheça alguns pulps

Amazing Stories (1926-2005): Foi criada pelo luxemburguês-americano Hugo Gernsback, um inventor e entusiasta da eletricidade. A revista é considerada um dos berços da ficção científica moderna, visto que na época, o termo ainda nem existia completamente. Gernsback escreveu no prefácio do primeiro número, apresentando seu “Novo Tipo de Revista”, engrenada a um “mundo inteiramente novo” que instruiria além de entreter. Edgar Allan Poe, Júlio Verne e H.G. Wells são citados como seus “antepassados”. A premiação Hugo Awards menciona Gernsback em seu nome. Os prêmios são dados a autores e obras em diferentes mídias, sempre com foco nos gêneros de ficção científica, fantasia, terror e afins.

 


The Weird Tales (1923): Apesar de sempre ter lucrado pouco com suas baixas tiragens, a revista existe até hoje. Foi interrompida em 1974, mas reavivada por outros editores com o passar dos anos. Poesia, ficção e não ficção eram os gêneros da revista, que abordavam histórias de fantasmas, invasões alienígenas e forças ocultas. Desde que a revista foi assumida em 2007 pela editora Ann VanderMeer, a Weird Tales ganhou um Hugo Award na categoria “Semiprozine” (para revistas semiprofissionais) e teve mais duas indicações.

 




Ginger Stories (1928-1936): As capas das revistas prometiam um conteúdo “picante, pungente, apimentado, agradável”. Em 1931, o título foi alterado para apenas Ginger pelo seu editor, Frank Armer. A revista é pioneira no que se trata de girlie pulps, com capas que realmente traziam “mocinhas” com um notável aspecto erótico. Armer era editor de pulps semelhantes e chegou a ser pressionado, junto com outros colegas, pelo Comitê pela Decência Civil de Nova York em 1932, pelo conteúdo “indecente” das revistas. O editor cedeu e cessou a produção. Reavivada em 1935 por Henry Marcus, Ginger teve uma versão completamente diferente até em seu aspecto físico, passando por várias casas editoriais até terminar de vez em 1936.

Pulps no Brasil

Aqui em nosso País, as revistas pulp ficaram conhecidas como “revistas de emoção”, segundo o colecionador e pesquisador Athos Eiclher Cardoso, da Universidade de Brasília.

Especula-se que a primeira tenha sido a Romance Mensal: Uma Revista Diferente das Outras, lançada em 1934. Dois anos depois, vieram Aventura e Mistério, Detetive e A Novela, que em seus dois anos de vida teve Erico Verissimo como editor, na Livraria do Globo.


A Contos Magazine é um exemplo de sucesso. Foi lançada em 1937 e terminou em 1945 com tiragens de 40 mil exemplares com histórias de piratas, ficção científica e western. O Sombra, personagem ícone, também apareceu nessa revista. X-9 (1941-1962) e Meia-Noite (1948-1968) são outros títulos relevantes das revistas de emoção e publicavam histórias de crime, horror e ficção científica. Na década de 40, Nelson Rodrigues foi editor da Detetive e escrevia nela sob o pseudônimo “Suzana Flag”.


A primeira revista brasileira de ficção científica foi a Fantastic (1955-1961), também conhecida como Cine-Lar Fantastic, e teve sua origem na americana de mesmo nome e lançou 12 números. A segunda foi Galáxia 2000, versão da The Magazine of Fantasy and Science Fiction, publicada pela Edições O Cruzeiro. Teve gênese em 1968, fechou pouco depois e retornou em 1970 sob o título Magazine de Ficção Científica e teve edição de Jerônymo Monteiro, figura da sci-fic brasileira, na Livraria do Globo. A revista durou 20 números e fechou no ano seguinte por conta das baixas vendas e do falecimento de seu editor. 

Antonio D’Elia, Patrícia “Pagu” Galvão (usando o pseudônimo “King Shelter”) e R. F. Lucchetti, roteirista de vários filmes do Zé do Caixão, são alguns nomes de escritores de pulp brasileiro.

Opiniões de um fã

No exterior, as pulp magazines representam um momento na história da humanidade, certamente único, em que a leitura foi a forma número um de entretenimento moderno”, diz Roberto de Sousa Causo (foto à direita), escritor e grande fã de pulps. “Delas resultaram a quase totalidade dos gêneros literários modernos, e no seu surgimento elas ajudaram a mapear uma nova paisagem psicossocial. É na literatura de gênero, como afirma o pesquisador inglês Clive Bloom, que está o verdadeiro registro do sensorium da sociedade democrática moderna.”
  
Causo já trabalhou como escritor e ilustrador na Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica, e editor na Quark e Pery Rhodan. Escreveu os livros Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 e organizou a série de antologias Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica – alguma dúvida de que Causo é influenciado pelas revistas pulp?

Ele diz que elementos das publicações estão por toda parte, impregnados na literatura de gênero atual. “Como escrevo ficção científica, fantasia e horror, a partir de uma postura consciente da história e das características desses gêneros, estou igualmente impregnado pelo ethos* pulp.

Pulps hoje

Caso você esteja se perguntando sobre o filme de Tarantino, sim, o título de Pulp Fiction é uma menção às revistas. E isso está em seu conteúdo também, pois os elementos de sua trama são a cara das histórias em papel barato. Inclusive, Black Mask, um dos pulps mais conhecidos, serviu de inspiração para o cineasta. Durante algum tempo, o filme teve esse nome como título provisório.

Já a banda inglesa Pulp tem esse nome por causa do filme Diário de um Gângster (1972), em que Michael Caine interpreta um escritor de romances de detetive que são impressos no estilo “paperback”, com as páginas coladas e sem capa dura.

O quadrinho Tom Strong, do inglês Alan Moore (o escritor barbudo por trás de Watchmen e V de Vingança), lançado em 1999, é fortemente inspirado em pulps, além de ter bebido na fonte de histórias em literatura, filmes e quadrinhos dos anos 20 para ser criado.

Recentemente, Dan DiDio, co-publisher da DC Comics, disse que a editora não tem mais direitos de publicação de antigos personagens pulp como Doc Savage, The Spirit e Rima. O blog TheBeat disse que a Warner Bros., estúdio que leva ao cinema adaptações de títulos da DC, sugeriu à editora não investir em personagens antigos e não rentáveis enquanto há vários outros “subaproveitados”.

Outros pulps

Cheque no blog Monster Brains algumas artes de pulp mexicano.

Conheça a revista brasileira Lama, que conta histórias através de texto, ilustrações e fotografias. Todas bem no estilo pulp de ser.

O site pulpword.com tem um acervo de pulps à venda e muitas informações sobre o assunto.

O pulpartists.com também tem um grande acervo de imagens, incluindo o miolo de algumas revistas.

The Pulp Magazines Project é outro site bem interessante, onde o objetivo é estudar e preservar as revistas. Há um acervo também.
 
* “Ethos” é um termo grego que significa “personagem” e é usado para designar os costumes de um povo ou uma ideologia
* Imagens são reproduções de: Pulp Mags (Wordpress) / Mercado Livre / The Pulp Magazines Project / Arquivo pessoal do escritor / Fascination Place / Arquivo pessoal do jornalista