Emissora deu credibilidade ao meio de comunicação nas classes altas, seu
público principal
A proposta revolucionária da
rádio
Eldorado de transmitir uma refinada programação musical fez dela um marco
na história do radialismo brasileiro. Inaugurada em 1958, na cidade de São
Paulo (SP), ela colocava no ar música moderna brasileira e de países como
Estados Unidos, Inglaterra, Itália e França. A música clássica também estava em
sua programação. Pertencente ao Grupo Estado, o jornalismo da rádio era oriundo
do
Estado de S. Paulo, que à época,
era o principal jornal brasileiro. Outros diferenciais da rádio estavam em sua
grade permanente de programação, sua seleta equipe de locutores, que deviam
transmitir serenidade e ter vozes agradáveis, e seu material publicitário sem
jingles ou recursos sonoros semelhantes.
O público da Eldorado era principalmente as classes A e B.
Segundo Antônio de Andrade,
pesquisador da
Cátedra de Comunicação Unesco/Metodista, a Eldorado deu
credibilidade ao rádio como meio de comunicação na classe A, que desconsiderava
sua importância por ser um veículo de massa. “E abriu espaço para um modelo
mais sofisticado e de padrão similar ao que melhor se fazia no mundo. A
Eldorado representava toda pujança, modernidade e garra da grande metrópole
paulista”, diz.
Inauguração do auditório da Eldorado, em 1958 (Foto: arquivo/AE)
Andrade conhece a rádio desde as
primeiras transmissões dela. “Segui sendo fiel ouvinte até o momento em que a
Eldorado entrou em decadência. Aprendi a curtir boa música ouvindo seus
programas. Só ia dormir quando a emissora encerrava as transmissões
pontualmente à meia-noite.”
A memória da rádio foi pouco
preservada. Hoje, seu acervo não é tão extenso quanto poderia ser e o resgate
de sua história se baseia em lembranças nostálgicas como as de Andrade.
“A gente diz que a Eldorado só
tem lembranças, não tem memória”, comenta o radialista Edgard Gonçalves. Aos 72
anos, o “Sr. Edgard”, como é conhecido, é uma das últimas testemunhas da
história da Eldorado. “Hoje, praticamente, a gente não tem coisas do início da
rádio. O que nós temos são vinhetas, alguns programas, coisas assim, que
ficavam comigo e eu guardei. Mas reportagem e essas coisas, a rádio não tem
nada.”
Aos 17 anos de idade, ele foi
contratado para trabalhar como office boy
na Eldorado. Na primeira vez em que esteve nela, a rádio se localizava na
Rua Major Quedinho, no bairro República, em sua primeira instalação. O Sr.
Edgard se lembra que ela estava sendo montada e as linhas telefônicas
instaladas. Ele nem sabia que se tratava de uma rádio. Apenas um mês depois descobriu
isso através de um colega. A estreia da emissora aconteceu no ano seguinte.
Dentre suas lembranças daquele tempo,
está a da Pró-Música, uma programação designada a bares, restaurantes,
consultórios médicos, etc. “O receptor era fabricado aqui na rádio mesmo e ela
os alugava para clientes, que pagavam uma mensalidade e tinham só música o dia todo.
Música ambiente, orquestral, solo...”
Uma vez por mês, ele fazia
cobrança das mensalidades pessoalmente nos estabelecimentos.
Da Eldorado, o sujeito só sai quando morre
Ser radialista da Eldorado
significava estar no ápice da carreira. O Sr. Edgard conta que, José Scatena
(1918-2011), à época um dos diretores da gravadora RGE Discos, dizia que a
Eldorado era igual ao time Santos Futebol Clube nas décadas de 60 e 70. “Todo
jogador queria ir pro Santos. E todo radialista queria vir para a Eldorado. O
Scatena dizia: ‘Da Eldorado, o sujeito só sai quando morre’”.
Outras rádios não contratavam
funcionários da Eldorado pois sabiam que não cobririam os salários (os melhores
do mercado) que a emissora pagava a eles.
Em 64, na ocasião do golpe
militar, que iniciou uma ditadura que assombraria o Brasil pelos 21
anos seguintes, o Grupo Estado declarou apoio à ação. O Sr. Edgard lembra que os funcionários
da rádio conversavam sobre o assunto e não aprovavam a adesão da empresa.
“Tinha uma menina, que trabalhava
comigo na discoteca, que se envolveu com um grupo [de esquerda]. Tanto é que
ela teve que ir embora para a França”, diz. “Quando teve o golpe, ela simplesmente
sumiu, desapareceu. Mas nunca comentou nada. Gozado, né? Na discoteca, se
falava só sobre música. Dificilmente alguém falava de política.”
Nos tempos de Major Quedinho, os
funcionários trabalhavam com receio de ataques ao prédio, pois era comum haver
alertas de bomba. O alarme tocava, o imóvel era evacuado e apenas o locutor e o
operador que estavam no ar permaneciam, enquanto a polícia fazia o trabalho
dela. Em uma ocasião, houve uma explosão que causou danos ao prédio e a morte
de um porteiro. O Sr. Edgard considera a possibilidade de ter sido ação de
guerrilheiros.
O radialista Edgard Gonçalves na discoteca da Eldorado, em
1967 (Foto: arquivo/AE)
“Nós tínhamos um [colega] que
saía correndo da rádio para trabalhar com esse pessoal [da militância
esquerdista]”, conta. “Mas, na rádio mesmo, o sujeito não comentava nada. Isso
sempre teve no meio do jornalismo.”
A Polícia Federal exigia da
rádio, com uma semana de antecedência, o envio de uma lista com toda a
programação a ser transmitida. Apenas depois de passar por esse crivo, era
possível coloca-la no ar.
Diversos artistas de bossa nova, que
ocupavam boa parte da seleção musical, iam ao ar. No entanto, se a música
tivesse algum conteúdo contrário ao regime, era cortada da lista. Entre 66 e 67,
agentes da PF chegaram a confiscar alguns discos de artistas que se opunham ao
regime. (O Sr. Edgard não se recorda da data específica do acontecido ou de
quem eram os discos pois estava ausente, de férias.)
Trata-se de um dos raros momentos
tensos de contato com a censura que a rádio teve, pois ela não era tão podada quanto
o jornal impresso.
À época, já havia censura no Estadão, a referência para a produção
jornalística da Eldorado. A dinâmica fazia com que as informações a caminho também
já tivessem sido avaliadas antes de difundidas. O Grupo Estado havia retirado
seu apoio à ditadura.
O Sr. Edgard não chegou a se
envolver com nenhum dos lados do conflito: “Meu negócio era música. Meu negócio
era fazer meus programas musicais”.
O clássico Boca da Noite, produzido por ele, encontrou seu espaço na massiva
audiência da Eldorado. Tinha “música lenta, tranquila” em sua programação, ia
ao ar na hora do rush e
frequentemente recebia cartas e pedidos de música. Um Piano ao Cair da Tarde, outro clássico, também teve sua assinatura.
“Eu peguei um tempo bom da rádio,
em que ela não se preocupava com audiência. Você tocava aquilo que você achava que
tinha qualidade”, diz o radialista. Nomes nacionais de presença na programação
eram João Gilberto, Flora Purim, Alaíde Costa, Nara Leão, Chico Buarque, Wanda
Sá e Bossa Três, entre outros.
“As
gravadoras mandavam suplementos que elas lançavam, vinha o divulgador trazer o
disco aqui e eles nunca falavam nada.”
Exatamente
o contrário do que faziam em outras rádios. Em vez de sugerir faixas que
estavam sendo trabalhadas, deixavam a Eldorado ouvir e escolher a música que
iria ao ar.
“A gente
nunca tocava aquela faixa que eles estavam trabalhando porque era sempre a pior.
Normalmente, eles forçavam o lado A [do disco] e a gente tocava o lado B,
porque o lado A era sempre o mais popular.”
Em 72, a
Eldorado fazia outro marco. Mas desta vez, na indústria fonográfica brasileira.
Foi inaugurado o Estúdio Eldorado, utilizando o lendário auditório da rádio.
Seus equipamentos de gravação tinham 16 canais, ao contrário dos frequentes
oito canais na concorrência. Caetano Veloso, Tim Maia e Roberto Carlos são
alguns que utilizaram o espaço para fazer gravações.
“A rádio
não se preocupava com faturamento, porque se faltasse, o Estadão bancava. O momento em que a rádio passou a se preocupar com
isso foi quando começou a depender de seu faturamento”, conta o Sr. Edgard.
Trata-se
da fase em que João Lara Mesquita assumiu a direção, em 82. As mudanças mais
bruscas começaram quatro anos mais tarde, como a expansão do jornalismo e a
programação 24h por dia.
Declínio e digitalizações
“O padrão da Eldorado resistiu
por quase duas décadas”, explica o pesquisador Antônio de Andrade. “A
concorrência das FMs e ajustes feitos no Estadão
e no Jornal da Tarde [também do
Grupo Estado] respingaram na rádio, que pouco a pouco, foi perdendo sua
identidade com o público da classe A na AM. A exigência de uma sonoridade
melhor acabou comprometendo o padrão que a emissora adotava desde 58. O
surgimento da emissora CBN [da Organizações Globo] foi o ponto final.”
Segundo Andrade, fica no
radialismo brasileiro uma lacuna outrora ocupada pela Eldorado. “Sou da opinião de que, se uma
emissora retomasse o padrão Eldorado, teria excelente receptividade em nossa
atualidade.”
Desde 2007, o Sr. Edgard está
digitalizando os arquivos remanescentes, a pedido dos diretores. Até hoje,
1.500 gravações foram informatizadas. De três a quatro mil ainda passarão pelo
processo.
A memória digitalizada garantirá
que não haja apenas lembranças da sonora revolução da rádio.
Sr. Edgard na discoteca da Eldorado em maio deste ano (Foto: Cecília Demarque)
Algumas músicas que não podiam tocar na rádio por causa da censura:
Reportagem realizada como parte do projeto integrado do 5º semestre de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. A proposta era produzir um texto sobre um veículo de comunicação fazendo ponte com a ditadura civil-militar, cujo golpe que a iniciou completou 50 anos em 2014.