sábado, 28 de março de 2015

HQ 'Perfuraneve' retrata convivência de sobreviventes de desastre climático

Obra é clássico cult sci-fi e chega às lojas em edição com as três partes da história

Esta resenha também está na revista O Grito!

Clássico cult da ficção científica, a graphic novel francesa O Perfuraneve (Le transperceneige, 1982) finalmente chega ao Brasil neste mês, pela Editora Aleph, com seus mil e um vagões e uma história angustiante e soturna.
Escrito por Jacques Lob (1932-1990) e desenhado por Jean Marc-Rochette, o quadrinho se passa em um período de tempo não definido – talvez no futuro –, e narra histórias que acontecem dentro do trem Perfuraneve. Sem destino, ele transporta o que resta da humanidade após um desastre climático desencadear uma nova era do gelo.
Confinados no trem, a convivência entre os passageiros se torna cada vez mais tensa com o passar do tempo. Num inquietante reflexo às organizações de nossa realidade, pessoas do Perfuraneve se unem em entidade militar e culto religioso, por exemplo. Os vagões da frente são ocupados pelos mais ricos e, os de trás, pelos mais pobres. Ou melhor: miseráveis vivendo em condições sub-humanas, negligenciados.
De forma geral, os passageiros têm pavor da devastação fora da locomotiva. Chamam a neve de “morte branca”. A situação se torna insustentável quando os protagonistas descobrem que líderes do Perfuraneve planejam soltar os vagões traseiros para possibilitar a continuação da viagem. O trem já não tem o mesmo fôlego de outrora. A arte em preto e branco e repleta de texturas reforça a conjuntura.
O Perfuraneve foi originalmente publicado na legendária revista de quadrinhos franco-belga mensal À Suivre (1978-1997) e depois pela editora Casterman, a partir de 1984. É o traço europeu na década que revolucionou as histórias em quadrinhos. A grande sacada da Aleph está em condensar, numa única edição, toda trilogia. O Explorador (1999) e A Travessia (2000) são as outras duas histórias, escritas por Benjamin Legrand após a morte de Lob. Há um generoso posfácio com esboços de artes e informações sobre o quadrinho e sobre o filme baseado nele, O Expresso do Amanhã (Snowpiercer), dirigido por Bong Joon-Ho e lançado em 2013.
O PERFURANEVE
De Jacques Lob (texto), Jean Marc-Rochette (arte) e Benjamin Legrand (texto)
[Editora Aleph, 280 páginas, R$ 59,90]
Tradutor: Daniel Lühmann
9,5





Veja abaixo amostras do quadrinho:

Imagens: Divulgação/Aleph

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Anônimos de São Caetano do Sul

No Terminal Rodoviário Nicolau Delic, ou simplesmente Terminal São Caetano, o fim de tarde comum tem senhores jogando dominó. Hoje tinha um deles cutucando com um bastão a copa do que me pareceu ser um pé de manga.

Enquanto eu estava na fila do ônibus, vi um sujeito perneta mover-se vigorosamente com suas muletas pela faixa de pedestre. Senti o inconfundível cheiro de esgoto vindo de uma enorme poça. Assim que me sentei dentro do ônibus, tirei da mochila um sanduíche e o comi.

Da janela, pude observar que, na rua, um homem levava um engradado de garrafas de Coca-Cola na bicicleta que ele pedalava. Um senhor cheirando a desinfetante sentou-se ao meu lado.

Estes são alguns anônimos de São Caetano. E a vida, meus amigos, é pitoresca.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Em 'Grandes Olhos', novo filme de Tim Burton, Margaret Keane nos ensina sobre vulnerabilidade

Este artigo também está no Brasil Post.


Christoph Waltz e Amy Adams em cena de Grandes Olhos: eles vivem Walter e Margaret Keane, respectivamente. Neste ano, Adams ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia/musical pelo papel (Foto: Divulgação)


"Os anos 1950 foram uma grande época, se você fosse um homem", diz o narrador em off. Uma mulher, apressada e aflita, coloca seus pertences e os de sua filha no porta-malas do carro estacionado em frente à casa. Já na estrada, a mulher acelera e, sobre o banco da motorista, sua mão segura a da criança.
A mulher, no caso, é a pintora norte-americana Margaret D.H. Keane, em 1958. E a cena descrita acima é a que abre Grandes Olhos (Big Eyes, 2014), novo filme de Tim Burton que estreia nesta quinta-feira (29).
Margaret não só deixou seu marido, Walter Keane, como o acusou publicamente de usurpar dela a autoria de suas pinturas, que enriqueceram (e muito) o casal. Durante os dez anos de casamento, Walter, também pintor, se valeu de compartilhar seu sobrenome com Margaret para se apresentar como autor das obras ultra populares dela.
As pinturas de Margaret são de crianças, mulheres e animais com olhos hiperbólicos e desolados. São reflexo direto da latente sensibilidade da pintora - característica que ela teve de contrariar para assumir suas obras e autonomia como indivíduo.
Walter usou como trampolim para si essas (supostas) fragilidades de Margaret. Ao contrário dela, ele sabia como vender as obras. Sua lábia, simpatia e forte presença garantiram aos quadros acesso a círculos estratégicos. E a ele, total domínio sobre sua esposa. Margaret chegou a pintar 16 horas por dia, enclausurada num estúdio de cortinas fechadas e porta trancada, sem amigos e isolada de sua filha, único fruto do casamento anterior. Walter tinha o dinheiro, a fama e, como Margaret contou ao Guardian, as ameaças na ponta da língua. E ela, por sua vez, tinha uma criança, um segredo que podia lhe constranger e medo de seu marido. A má recepção que o mundo das artes já dava às mulheres artistas reforçava a situação.
No entanto, a insegura, silenciosa e sensível Margaret não é a coitadinha da história. Ela é a heroína.
Em sua pertinente palestra no Ted sobre o poder da vulnerabilidade, Brené Brown, pesquisadora da Universidade de Houston, afirma que não há como separar o "mau sentimento" (medo, vergonha, decepção) do "bom" (gratidão, felicidade, prazer). Quando enfraquecemos um, também o fazemos com o outro. Segundo a assistente social, ignorar nossas vulnerabilidades implica em não sentirmos o que há de bom. O que nos deixa vulneráveis. E aí começa um ciclo. Em entrevista à Forbes, Brown define vulnerabilidade como "incerteza, risco e exposição emocional".
Isto nos faz voltar à Margaret Keane. Walter abusou psicologicamente dela. E ela lhe aplicou um belíssimo chute no traseiro, que teve duas fases: o abandono que ele não esperava e um processo judicial. Este último serviu para identifica-la como a artista que criou o que tanto vendeu, fez sucesso e deixou marca na história da arte contemporânea. Porque sozinha ela já era o suficiente.
Margaret é a mulher que, num contexto ainda mais machista que o de hoje, arriscou atear fogo às mentiras que a rodeavam - mas que, antes disso e para isso, abriu-se ao mundo para mostrar suas feridas.