domingo, 26 de julho de 2015

Resenha: 'Do que É Feita uma Garota', de Caitlin Moran


No início dos anos 1990, a banda Blur lançava seu primeiro disco, Leisure. Milhões de britânicos estavam desempregados em decorrência de medidas econômicas tomadas pela então premiê Margaret Thatcher. Manifestações contra a líder chacoalhavam o Reino Unido. É deste contexto que brota a história do romance Do que É Feita uma Garota, o primeiro da jornalista inglesa Caitlin Moran.

O livro conta a jornada de Johanna, adolescente de 14 anos do proletariado que vive em Wolverhampton, cidade praticamente ao léu após milhares de demissões em sua indústria. A garota passa por um vexame daqueles na tevê local e decide mudar radicalmente sua persona. De alguém gorda, pobretona e tagarela que só pensa em se masturbar e mora no meio do nada, ela quer ser uma renomada jornalista musical de visual gótico em Londres. A seu favor, Johanna tem astúcia. Ela inventa um pseudônimo, abandona a escola e tem a boa intenção de ajudar financeiramente sua numerosa família, que vive às custas de pensões do governo. Mas, claramente, o plano de Johanna tem uma falha: não há como assumir uma vida de adulto quando você ainda não é um.

Caitlin Moran: a própria escritora adaptará para o cinema seu novo livro (Foto: Reprodução)

Aos trancos e barrancos, a protagonista sente o sabor amargo de experiências talvez inapropriadas para alguém tão jovem. Em meio às referências pop – bandas da época, como My Bloody Valentine, Babes in Toyland e Teenage Fanclub, são citadas aos montes –, com senso de humor grosseiro e tom feminista, Moran conduz a história com habilidade: ela encadeia a sequência de acontecimentos em uma narrativa ágil.

Do que É Feita uma Garota não quer ter a grandeza de um clássico literário, mas é do tipo de romance que consegue deixar o leitor com vontade de ir ao próximo lançamento da autora – o que já é um feito e tanto.

PONTO POSITIVO Moran vai arrancar boas risadas de você...
PONTO NEGATIVO ... mas usa muitos traços e ponto e vírgula, o que aumenta frases e parágrafos mais do que necessário.

DO QUE É FEITA UMA GAROTA
Autora: Caitlin Moran
Título original: How to Build a Girl
Tradução: Caroline Chang
Páginas: 392
Preço: R$ 44,90

sábado, 28 de março de 2015

HQ 'Perfuraneve' retrata convivência de sobreviventes de desastre climático

Obra é clássico cult sci-fi e chega às lojas em edição com as três partes da história

Esta resenha também está na revista O Grito!

Clássico cult da ficção científica, a graphic novel francesa O Perfuraneve (Le transperceneige, 1982) finalmente chega ao Brasil neste mês, pela Editora Aleph, com seus mil e um vagões e uma história angustiante e soturna.
Escrito por Jacques Lob (1932-1990) e desenhado por Jean Marc-Rochette, o quadrinho se passa em um período de tempo não definido – talvez no futuro –, e narra histórias que acontecem dentro do trem Perfuraneve. Sem destino, ele transporta o que resta da humanidade após um desastre climático desencadear uma nova era do gelo.
Confinados no trem, a convivência entre os passageiros se torna cada vez mais tensa com o passar do tempo. Num inquietante reflexo às organizações de nossa realidade, pessoas do Perfuraneve se unem em entidade militar e culto religioso, por exemplo. Os vagões da frente são ocupados pelos mais ricos e, os de trás, pelos mais pobres. Ou melhor: miseráveis vivendo em condições sub-humanas, negligenciados.
De forma geral, os passageiros têm pavor da devastação fora da locomotiva. Chamam a neve de “morte branca”. A situação se torna insustentável quando os protagonistas descobrem que líderes do Perfuraneve planejam soltar os vagões traseiros para possibilitar a continuação da viagem. O trem já não tem o mesmo fôlego de outrora. A arte em preto e branco e repleta de texturas reforça a conjuntura.
O Perfuraneve foi originalmente publicado na legendária revista de quadrinhos franco-belga mensal À Suivre (1978-1997) e depois pela editora Casterman, a partir de 1984. É o traço europeu na década que revolucionou as histórias em quadrinhos. A grande sacada da Aleph está em condensar, numa única edição, toda trilogia. O Explorador (1999) e A Travessia (2000) são as outras duas histórias, escritas por Benjamin Legrand após a morte de Lob. Há um generoso posfácio com esboços de artes e informações sobre o quadrinho e sobre o filme baseado nele, O Expresso do Amanhã (Snowpiercer), dirigido por Bong Joon-Ho e lançado em 2013.
O PERFURANEVE
De Jacques Lob (texto), Jean Marc-Rochette (arte) e Benjamin Legrand (texto)
[Editora Aleph, 280 páginas, R$ 59,90]
Tradutor: Daniel Lühmann
9,5





Veja abaixo amostras do quadrinho:

Imagens: Divulgação/Aleph

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Anônimos de São Caetano do Sul

No Terminal Rodoviário Nicolau Delic, ou simplesmente Terminal São Caetano, o fim de tarde comum tem senhores jogando dominó. Hoje tinha um deles cutucando com um bastão a copa do que me pareceu ser um pé de manga.

Enquanto eu estava na fila do ônibus, vi um sujeito perneta mover-se vigorosamente com suas muletas pela faixa de pedestre. Senti o inconfundível cheiro de esgoto vindo de uma enorme poça. Assim que me sentei dentro do ônibus, tirei da mochila um sanduíche e o comi.

Da janela, pude observar que, na rua, um homem levava um engradado de garrafas de Coca-Cola na bicicleta que ele pedalava. Um senhor cheirando a desinfetante sentou-se ao meu lado.

Estes são alguns anônimos de São Caetano. E a vida, meus amigos, é pitoresca.